O ar em Snowmass, Colorado, a 2.400 metros de altitude, é cortante. Em meados de julho, durante as celebrações de 60 anos do Anderson Ranch Arts Center, o ar estava também perigosamente seco. Tão seco que o marcador de risco de incêndio apontava para “extremo”, os artistas precisavam de permissão especial para ligar os fornos de cerâmica e a primeira parte do código de vestimenta para o baile de gala anual — “Sparkle” (brilho, faísca) — soava quase como uma transgressão. A cena, capturada em uma reportagem da revista ARTnews, encapsula a tensão que define o momento atual da instituição: um paraíso da criação artística que precisa negociar sua existência com as realidades materiais que o cercam.

Fundado em 1966, o Anderson Ranch é um complexo de cinco acres que funciona como uma espécie de campo de férias utópico para artistas, oferecendo workshops e residências. Em seu aniversário de seis décadas, o centro se vê em uma encruzilhada. Com um orçamento operacional de US$ 7,6 milhões e um endowment que chega a US$ 17 milhões, a instituição nunca foi tão robusta financeiramente. Ao mesmo tempo, nunca esteve sob tanta pressão para equilibrar o crescimento com a autenticidade que a tornou um refúgio para a vanguarda artística.

Uma utopia forjada na história

A alma do Anderson Ranch está intrinsecamente ligada à sua história de origem. O fundador, Paul Soldner, foi um dos ceramistas que, nos anos 60, libertaram a argila de sua associação estrita com a cerâmica utilitária. Ele só se tornou artista, no entanto, após uma experiência transformadora como médico do exército americano na Segunda Guerra Mundial. Ao ajudar a libertar o campo de concentração de Mauthausen, na Áustria, Soldner viu desenhos a carvão feitos por um prisioneiro nas paredes de uma cela. Aquelas imagens, segundo sua filha, o desviaram da carreira na medicina e o empurraram para a arte. O rancho nasceu desse impulso: a crença na importância fundamental do fazer artístico para o espírito humano.

Nos primeiros anos, o lugar era pouco mais que “um forno em um campo”. Veteranos lembram de uma banheira de hidromassagem improvisada por Soldner, que se tornou metáfora para a cultura livre e boêmia da época. Artistas dormiam em seus carros e tomavam banho com a mangueira do jardim. A profissionalização começou entre os anos 70 e 80, mas a mística de um lugar à parte, quase um posto avançado da contracultura, permaneceu. É essa herança de fluidez artística e liberdade que o mundo da arte contemporânea hoje valoriza no Ranch — sua separação das pressões comerciais e políticas dos grandes centros.

O paradoxo de Aspen

O desafio é que o Ranch não está mais isolado. Ele orbita Aspen, um dos lugares mais caros dos Estados Unidos, onde o preço médio de um imóvel é de US$ 14 milhões e a piada local diz que um morador ou tem três casas ou três empregos. Essa gentrificação extrema, que expulsa carpinteiros e assistentes de estúdio, cria um paradoxo. O Ranch depende da filantropia gerada por essa riqueza para financiar seus programas e bolsas de estudo, mas essa mesma proximidade com o capital ameaça a cultura de base que o define. A gestão de Peter Waanders, presidente desde 2019 e vindo do Aspen Institute, tem o mandato de navegar essa dualidade: profissionalizar a gestão e modernizar a infraestrutura sem “perder o que é realmente especial sobre este lugar”.

Esse contraste se torna explícito na semana do baile de gala, principal evento de arrecadação. Em uma noite, mais de US$ 1,6 milhão foi levantado para bolsas e programas. O evento atrai doadores em trajes de alta-costura e saltos vertiginosos que negociam com o chão de cascalho do campus. Ao mesmo tempo, um artista residente, vestido de forma casual, observa a cena de longe, com um ar de quem estuda um fenômeno antropológico. A curadora Helen Molesworth descreveu a força do Ranch como um lugar onde “você tem desde Simone Leigh até um pintor de domingo”, e onde essas divisões se desfazem em nome da criação. Waanders ecoa a visão, celebrando o fato de que ali um bilionário pode sentar-se ao lado de um estudante bolsista para aprender aquarela.

A questão que paira sobre o futuro do Anderson Ranch é se essa coexistência é sustentável ou apenas um interlúdio. A sobremesa servida no baile — simples donuts cortados e montados para formar arco-íris — foi vista como uma metáfora do espírito do lugar: transformar materiais humildes em algo especial. A dúvida é se essa mágica ainda funciona quando os ingredientes não são mais tão humildes, e se o espírito de um forno num campo pode sobreviver em meio a diamantes e taças de champanhe.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews