A atenção do Brasil está voltada para as tarifas impostas por Donald Trump, vistas como o principal foco de tensão comercial do país. Contudo, para o economista americano Chad P. Bown, pesquisador do influente Peterson Institute for International Economics, essa é uma leitura que confunde o sintoma com a doença. Em uma análise contundente à Bloomberg Línea, Bown argumenta que o mundo já vive uma guerra comercial, mas seu arquiteto não está na Casa Branca.

Mesmo que as relações entre Brasília e Washington fossem cordiais, o Brasil estaria imerso na mesma disputa. A tese de Bown é que as ações de Trump são, em grande medida, uma “distração”. O conflito mais profundo e estrutural é imposto pela China e sua estratégia econômica. O desafio para países como o Brasil não é apenas reagir às provocações tarifárias americanas, mas compreender e se posicionar diante de uma reconfiguração geopolítica que transcende o ciclo eleitoral dos EUA.

A Distração Tarifária

Na visão de Bown, as barreiras comerciais erguidas por Trump contra o Brasil têm mais a ver com política doméstica e idiossincrasias pessoais do que com uma estratégia comercial coerente. O economista, que atuou nos governos Obama e Biden, aponta que o volume de trocas entre Brasil e Estados Unidos não é tão significativo sob a ótica americana, o que enfraquece a lógica puramente econômica das tarifas. A disputa, portanto, torna-se um ruído que desvia o foco de questões mais prementes.

Nesse cenário, a ideia de retaliação tarifária por parte do Brasil é vista como ineficaz e potencialmente autodestrutiva. Bown questiona se o Brasil possui alguma “arma comercial” — um insumo crítico ou mercado indispensável para os EUA, como as terras raras são para a China — que lhe daria poder de barganha. Sem essa alavancagem, impor tarifas de volta seria apenas “causar mais dano a si mesmo sem ganho nenhum”. O conselho é pragmático: em vez de reagir a cada provocação, o país deveria focar no que é melhor para sua própria economia, mesmo que isso signifique absorver o golpe no curto prazo.

A Guerra Estrutural de Pequim

O verdadeiro campo de batalha, segundo Bown, foi desenhado por Pequim. Ele aponta para a visão estratégica do presidente Xi Jinping, que almeja um futuro de “dependência de mão única”: o mundo dependendo da China para suas cadeias de suprimentos, enquanto a China se torna autossuficiente. Não se trata mais de interdependência, o pilar do sistema de comércio global do pós-guerra, mas de uma relação assimétrica de poder. Os dados, segundo o economista, corroboram essa leitura: nos últimos cinco anos, as importações chinesas estagnaram, enquanto suas exportações continuam a crescer, encontrando novos mercados na América Latina, Europa e Ásia para compensar as perdas com as tarifas americanas.

A China não hesita em usar seu domínio sobre insumos críticos como instrumento de pressão. Bown cita as restrições à exportação de terras raras e ímãs permanentes — essenciais para a indústria automotiva global —, que foram aplicadas não apenas contra os EUA, mas também contra Europa e Japão. Essa é a guerra comercial que, para o economista, “está sendo imposta” ao mundo. Ela não desaparecerá com o fim de um governo Trump, pois sua origem está no modelo econômico chinês, que não dá sinais de mudança. Prova disso é que o governo Biden, apesar da mudança de retórica, manteve as tarifas e aprofundou a política industrial para competir com a China.

Para o Brasil, o dilema é complexo. O país se beneficia da forte demanda chinesa por commodities, mas essa relação mascara a crescente dependência de um único e poderoso parceiro. A recomendação de Bown é clara: a diversificação é a única saída estratégica. Aprofundar laços comerciais com a Europa e outras regiões é fundamental para mitigar os riscos de se ver espremido entre as duas superpotências. Em um mundo onde “vencer” uma guerra comercial pode significar apenas minimizar as próprias perdas, a autonomia estratégica se torna o ativo mais valioso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea