A Casa Castela, projeto assinado pelo escritório BIRI em Nova Lima, Minas Gerais, redefine a ocupação de terrenos íngremes ao transformar um desnível de treze metros entre a rua e a cota da residência no eixo central de sua experiência arquitetônica. Em vez de tentar suavizar a inclinação natural do lote, os arquitetos incorporaram a topografia como elemento estruturante, utilizando uma passarela metálica vermelha e um elevador para conectar o acesso público ao nível habitável da casa.
Segundo reportagem do Designboom, o projeto surgiu da necessidade de adaptar uma estrutura preexistente e parcialmente construída às demandas contemporâneas de uma família. A intervenção exigiu um levantamento rigoroso das condições do terreno e uma revisão completa do programa espacial, resultando em uma residência de 332,25 metros quadrados que equilibra a necessidade técnica de contenção de encostas com uma proposta estética que dialoga com a paisagem mineral da região.
A estratégia de circulação como partido
O uso da passarela metálica não é apenas uma solução funcional para transpor o desnível, mas uma estratégia de projeto que estabelece a identidade da Casa Castela. Ao elevar o percurso de entrada, os arquitetos criaram uma sequência gradual de movimento e observação, permitindo que o morador interaja com a topografia antes mesmo de acessar os espaços internos. Esse elemento, em tom terroso que remete à riqueza de ferro do solo de Nova Lima, atua como um marco visual dentro do condomínio Vila Castela.
O sistema de circulação é complementado por muros de arrimo em concreto armado, que esculpem o terreno para acomodar o estacionamento e criar um pátio protegido na parte posterior. Essa intervenção, além de garantir a estabilidade da encosta, resolve problemas de umidade e cria um refúgio externo que se separa do solo natural, reforçando a distinção entre a estrutura construída e o terreno original.
Organização espacial e materialidade
Internamente, o projeto segue uma lógica de ocupação que separa claramente as zonas públicas das privadas. O pavimento térreo concentra as áreas sociais — sala de estar, jantar, cozinha e ateliê — em um plano contínuo que mantém uma conexão direta com as áreas externas. Já o andar superior abriga a ala íntima, composta por uma suíte master e dois dormitórios infantis, garantindo a privacidade necessária para o cotidiano familiar.
A materialidade reflete uma escolha consciente por tradições construtivas regionais, mesclando concreto armado, alvenaria cerâmica e telhas de barro. O aço, presente na passarela, na pérgola e na estrutura do elevador, confere um contraponto industrial à solidez dos materiais tradicionais. Essa combinação não apenas respeita a cultura construtiva local, mas também confere à residência um caráter atemporal, onde a sobriedade dos acabamentos permite que a luz e a organização espacial protagonizem a atmosfera do ambiente.
Implicações da arquitetura em encostas
O projeto da Casa Castela exemplifica os desafios e as oportunidades de construir em topografias complexas. Para reguladores e engenheiros, o caso demonstra a importância de um estudo de solo detalhado e de soluções de contenção que não apenas garantam a segurança, mas que também agreguem valor ao desenho urbano. A integração entre o terreno e a estrutura é, nesse contexto, uma resposta necessária para evitar intervenções que apenas pavimentam ou aterram o solo, preservando, na medida do possível, a morfologia da paisagem original.
Para o mercado de arquitetura brasileiro, a obra reforça a tendência de valorizar projetos que interpretam o sítio de forma crítica. Em vez de nivelar o terreno para facilitar a construção, a abordagem do BIRI sugere que a dificuldade do lote pode se tornar o principal diferencial competitivo e estético de uma residência de alto padrão, transformando o custo da contenção em um elemento de design reconhecível.
Perspectivas e o papel da infraestrutura
O que permanece como ponto de atenção para projetos dessa natureza é a manutenção da infraestrutura de circulação vertical a longo prazo. A dependência de elementos mecânicos, como o elevador, e de estruturas metálicas expostas em um ambiente com umidade e topografia agressiva, exige um plano de gestão predial rigoroso. O sucesso da Casa Castela, portanto, não termina na entrega da obra, mas estende-se pela capacidade de manter a integração arquitetônica funcional ao longo das décadas.
Observar como o mercado imobiliário em condomínios de encosta reagirá a essa abordagem mais integrada será determinante para o desenvolvimento de futuras construções na região. A questão de como equilibrar a densidade urbana com o respeito aos acidentes geográficos permanece aberta, mas projetos como este indicam um caminho possível para a arquitetura residencial no Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





