A 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza apresenta o Pavilhão da Índia, um espaço que recorre a materiais ancestrais para investigar a experiência do distanciamento e a construção do conceito de lar. Sob o título 'Geographies of Distance: remembering home', a mostra reúne os artistas Alwar Balasubramaniam, Sumakshi Singh, Ranjani Shettar, Skarma Sonam Tashi e Asim Waqif. Segundo a curadoria de Amin Jaffer, a exposição transforma elementos como terra, fios, bambu e papel machê em reflexões sobre memória, migração e a fluidez do pertencimento.

O conjunto de obras, instalado no Isolotto do Arsenale, propõe que a ideia de casa não é um destino estático, mas algo continuamente reconstruído através de rituais e do fazer manual. Ao utilizar o artesanato como base conceitual e material, o pavilhão posiciona o conhecimento técnico como um arquivo vivo, capaz de carregar histórias pessoais e coletivas através das gerações, estabelecendo um diálogo entre o passado e as incertezas do futuro.

O artesanato como arquivo de pertencimento

O projeto vai além da apresentação do artesanato como simples patrimônio cultural. Ao selecionar materiais profundamente enraizados na vida cotidiana indiana, os artistas buscam compreender como o lar é lembrado quando os lugares originais se transformam, desaparecem ou tornam-se distantes. Para Jaffer, a materialidade é o elemento central que permite ao visitante perceber que as obras não são apenas objetos, mas recipientes de uma identidade civilizatória.

As instalações criam uma paisagem onde o lar é apresentado como fragmentado ou instável. Entre jardins suspensos e estruturas que remetem a habitações vernaculares, o pavilhão convida o público a transitar por diferentes manifestações de casa. Essa abordagem reforça a tese de que, em um mundo de mudanças rápidas, a memória material atua como uma âncora para a identidade, preservando formas de conhecimento que correm o risco de serem esquecidas.

A reconstrução da memória através da matéria

Cada artista emprega uma técnica distinta para abordar a perda e a continuidade. Sumakshi Singh, por exemplo, reconstrói sua casa de família demolida em Nova Délhi utilizando fios brancos translúcidos. Ao substituir o tijolo e o cimento por superfícies bordadas, a artista transforma a arquitetura em uma aparição, questionando o que permanece quando os marcos físicos desaparecem. O trabalho de Singh reflete sobre a necessidade humana de segurança e o papel do lar como um ponto de ancoragem emocional.

Alwar Balasubramaniam, por outro lado, foca na interação entre a terra e a água para criar superfícies rachadas que espelham a fragmentação ambiental e pessoal. Já Ranjani Shettar utiliza algodão fiado à mão e lacre em instalações suspensas que preservam um ritmo de produção mais lento, contrastando com a velocidade e a automação contemporâneas. Essas obras demonstram como a colaboração com forças naturais e processos artesanais permite que o tempo e a erosão se tornem parte integrante da narrativa artística.

Arquiteturas frágeis e o futuro em transição

Skarma Sonam Tashi aborda a fragilidade dos ecossistemas através das paisagens montanhosas de Ladakh. Utilizando papel machê reciclado e papelão, o artista recria agrupamentos de habitações que alertam para o desaparecimento de práticas construtivas tradicionais sob a pressão das mudanças climáticas e da modernização. Aqui, o artesanato atua como um mecanismo de resistência contra a obsolescência de saberes locais, destacando a necessidade de sustentabilidade na arquitetura.

Em contrapartida, a instalação de Asim Waqif traz um olhar voltado ao futuro. Com uma monumental estrutura de bambu, o artista ocupa o limiar entre o conhecimento ancestral e os regulamentos urbanos atuais. O bambu, material associado à construção informal, torna-se um símbolo de transição perpétua. A obra sugere que a Índia contemporânea não vive apenas de memórias, mas se move em direção ao amanhã com dinamismo, equilibrando a tradição com as exigências de um cenário urbano em constante mutação.

Desdobramentos e a experiência do lar

Para além do espaço expositivo, a programação do pavilhão em Veneza inclui performances e intervenções sonoras que ecoam a ideia de que o lar é uma experiência fugaz. O programa busca levar os conceitos da exposição para o tecido vivo da cidade, reforçando que o pertencimento não é fixo, mas algo experimentado através de encontros e memórias compartilhadas. O desafio permanece em como sustentar essa memória cultural em períodos de transformação acelerada.

O que se observa é uma proposta que utiliza a matéria para reconstruir o que a geografia física já não consegue sustentar. Ao tratar o artesanato como uma forma de transportar conhecimento, o Pavilhão da Índia oferece uma leitura sobre a resiliência da identidade em um mundo globalizado. A eficácia dessa abordagem em conectar o público com a complexidade indiana será medida pelo impacto dessas narrativas na percepção dos visitantes sobre suas próprias noções de lar.

Com reportagem de Brazil Valley

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