Simone Forti, uma das figuras mais influentes na intersecção entre dança, performance e artes visuais, morreu aos 91 anos. A notícia, reportada pelo portal de artes Hyperallergic, marca o fim de uma carreira de décadas dedicada a expandir as possibilidades do movimento e do meio artístico.

Nascida na Itália e radicada nos Estados Unidos, Forti não era apenas uma coreógrafa; era uma investigadora do corpo no espaço. Sua obra, marcada por uma curiosidade sem limites e um rigor formal, atravessou pintura, poesia, vídeo e até holografia. A tese aqui é que seu legado transcende a dança: ela ensinou a arte a pensar o movimento não como técnica, mas como matéria-prima para a própria criação.

A Arquitetura do Acaso

A contribuição fundamental de Forti foi tratar a dança menos como uma sequência de passos e mais como uma série de problemas a serem resolvidos em tempo real. Suas famosas "Dance Constructions" do início dos anos 1960, por exemplo, eram baseadas em instruções simples e objetos cotidianos, como cordas e rampas. O resultado não era uma coreografia fixa, mas um evento dinâmico, uma escultura em movimento que explorava o equilíbrio, a gravidade e a interação humana. Era a formalização do improviso, uma arquitetura do acaso.

Essa abordagem a posicionou no epicentro de diversas vanguardas. Como observou Glenn Phillips, curador-chefe do Getty Research Institute, que adquiriu o arquivo de Forti em 2020, "você a encontrará no meio de quase todas as vanguardas que atingiram Nova York e a Califórnia por pelo menos cinco décadas". Ela foi uma ponte entre a dança moderna, o minimalismo e a arte conceitual, influenciando artistas de Robert Morris a Yoko Ono.

O Corpo como Arquivo

Ao longo de sua trajetória, Forti demonstrou que a investigação do movimento não precisava se restringir ao palco. Sua prática multimídia reflete uma mentalidade profundamente contemporânea: usar a ferramenta mais adequada para a pergunta em questão. O fio condutor era sempre o corpo — como ele sente, como ele aprende, como ele se relaciona com o ambiente —, mas a expressão podia tomar a forma de um poema, uma pintura ou uma performance.

O fato de o Getty, uma das mais importantes instituições de pesquisa em arte do mundo, ter adquirido seu arquivo, sinaliza a consolidação de seu legado. As performances, por natureza efêmeras, e seus processos criativos, antes restritos a workshops e relatos, agora fazem parte do cânone histórico. O trabalho de Forti, que sempre pareceu estar no presente imediato, foi transformado em um arquivo permanente para o futuro.

Seu falecimento não encerra sua obra; apenas a entrega por completo à história. O que fica não são respostas, mas um método: uma forma de usar o corpo e a atenção para investigar o mundo. Um convite permanente para olhar o movimento mais simples e encontrar nele uma complexidade infinita.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic