Em março, a poeta e ensaísta Claudia Rankine visitou a exposição “Monuments” em Los Angeles. A mostra, que explorava os diálogos sobre a presença e a remoção de monumentos, a deixou com uma questão fundamental: que forma poderiam ter as esculturas públicas alternativas? Em vez dos “belicistas e colonialistas cavalos e homens de aço, pedra ou granito”, o que deveria nos acompanhar na construção diária da nossa história?

A resposta, ela sugere, talvez esteja sob nossos pés. Não no gramado, mas no próprio solo que o sustenta. Pouco na vida é mais permanente e gerador que o solo, argumenta Rankine. É ele que guarda, honestamente, os remanescentes da história, os artefatos, os ossos dos ancestrais e o nosso futuro. É essa a premissa que o artista Asad Raza materializa em sua obra Absorption (2019).

O monumento que respira

Absorption é uma instalação que já viajou o mundo, parte de uma série que Raza chama de “Metabolismos”. A obra consiste em um “neo-solo”, uma composição distinta da terra comum, criada a partir de areia, argila, bactérias, fungos, plantas e matéria orgânica em decomposição. Essencialmente, é um organismo vivo. E, como tal, demanda cuidado.

Uma vez instalada, a obra precisa de guardiões humanos que monitorem seu pH, mantenham sua umidade e a alimentem com novo material. Ela precisa ser revolvida e regada. O monumento, aqui, não é um objeto passivo de contemplação; ele assume a nossa presença e exige uma resposta. Rankine traça um paralelo com o gesto do artista David Hammons, que colocava um cachecol em uma escultura durante nevascas em Nova York. A arte deve demandar uma interação.

O metabolismo da memória

Raza desenvolveu a receita para este solo com sua filha, um detalhe que aproxima a obra de uma dimensão elementar e quase infantil. Para Rankine, em tempos onde paisagens são devolvidas a escombros e a impermanência é uma constante, a obra de Raza venera a mudança e o crescimento. O solo consome os detritos. Ele vive.

Enquanto a palavra “sujo” (do inglês soiled, também manchado, arruinado) parece ressoar com a nossa época, a instalação lembra que tudo vem do solo. Ele é o que resta quando as estruturas em que depositamos nossa fé e confiança entram em colapso. A obra não celebra uma glória passada e estática, mas a própria capacidade de transformação.

Absorption não é um testemunho de um passado finalizado, mas um convite para cultivar um futuro vivo. O monumento deixa de ser um objeto para se tornar um processo contínuo de cuidado e atenção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews