A chegada de novos medicamentos para o combate à obesidade transformou o cenário terapêutico, oferecendo esperança onde antes havia poucas opções farmacológicas. Contudo, o elevado preço desses tratamentos, como os agonistas do receptor GLP-1, levanta preocupações significativas sobre a equidade no acesso, especialmente no que diz respeito à obesidade infantil e adolescente. Diante deste quadro, a Associação Española de Pediatría (AEP) defende o financiamento público desses medicamentos para evitar a criação de uma nova barreira social.

O presidente da AEP, Luis Carlos Blesa, destacou a importância de que esses fármacos sejam considerados "uma ferramenta mais" no arsenal terapêutico. Ele argumenta que, embora existam medicamentos com indicação para obesidade em crianças e adolescentes a partir dos seis e 12 anos, com evidências de efeitos favoráveis, seu uso deve ser complementar a outras intervenções e medidas preventivas. A principal preocupação reside na questão da equidade: o alto custo mensal, estimado em cerca de 350 euros por paciente, pode se tornar um impeditivo para muitas famílias.

Um Custo Mensal de €350: A Barreira da Desigualdade

O coordenador do Comité de Promoção da Saúde da AEP, Julio Álvarez Pitti, ressaltou o temor de que o acesso a esses tratamentos se restrinja àqueles com maior capacidade financeira, aprofundando a desigualdade. Essa preocupação é especialmente pertinente dado o forte componente socioeconômico da obesidade infantil. Dados da AEP indicam que a prevalência da doença atinge 23% entre os grupos mais desfavorecidos, em contraste com 11% nos grupos mais abastados. Essa disparidade de 12 pontos percentuais cria uma aparente contradição: os menores com maior risco de desenvolver obesidade podem pertencer justamente às famílias com maiores dificuldades para arcar com o custo dos novos tratamentos.

A defesa do financiamento público não implica, contudo, em priorizar os medicamentos em detrimento de outras estratégias. Blesa enfatizou que a disponibilidade dessas novas terapias não deve levar à negligência na modificação de hábitos de vida que contribuem para o desenvolvimento da doença. Essa visão é compartilhada pela coordenadora do Comité de Nutricão e Lactância Materna da AEP, Rosaura Leis Trabazo, que posiciona a prevenção como um pilar fundamental na abordagem da obesidade.

Obesidade Infantil: Uma Doença Complexa e Crônica

Os números apresentados pela AEP pintam um quadro preocupante: a obesidade afeta 16% dos menores na Espanha, com outros 20% apresentando sobrepeso, totalizando mais de um terço de crianças e adolescentes com excesso de peso. A doença transcende a questão estética ou do peso corporal, podendo acarretar consequências em múltiplos órgãos e sistemas, e está associada a comorbidades como diabetes, hipertensão e problemas de saúde mental. Por essas razões, a AEP reivindica o reconhecimento da obesidade infantil e adolescente como uma doença crônica e complexa que demanda uma resposta abrangente e integrada.

O manifesto da associação propõe intervenções que comecem antes mesmo do nascimento, no período preconcepcional, e que deem atenção especial aos primeiros mil dias de vida. Além disso, clama por políticas públicas coordenadas em áreas como saúde, educação, urbanismo e proteção social para mitigar os "ambientes obesogênicos". O reforço da atenção sanitária com equipes multidisciplinares em Atenção Primária e hospitais, incluindo pediatras, enfermeiros, nutricionistas e especialistas em atividade física, também é uma demanda central.

Prevenção e Mudança Estrutural: Pilares da Luta Contra a Obesidade

Os pediatras também direcionam o foco para fatores cotidianos que agravam o problema, como sedentarismo, uso excessivo de telas, padrões de sono inadequados e hábitos de vida pouco saudáveis. A AEP defende mudanças estruturais que facilitem a adoção de escolhas saudáveis, independentemente do nível de renda. A sociedade científica também insiste na importância de combater o estigma e a culpabilização associados à obesidade, além de garantir a continuidade do cuidado quando os adolescentes transitam para o sistema de saúde adulto.

A discussão sobre o financiamento de medicamentos como os agonistas do receptor GLP-1 para a obesidade infantil é um reflexo da complexidade da doença e dos desafios para garantir um tratamento equitativo. A proposta da AEP busca equilibrar o avanço terapêutico com a necessidade de inclusão social, assegurando que os benefícios da ciência médica cheguem a todos os que precisam, sem a criação de novas disparidades.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España