Na antiga biblioteca de Southampton, em Nova York, o arquiteto e colecionador Peter Marino orquestra um tipo particular de caos. Em sua fundação de arte, um bronze do século XVII de Ferdinando Tacca convive com fotografias de Andy Warhol. Abstrações de Betty Parsons dividem parede com as de Carla Accardi. São mais de 500 obras, uma fração de seu acervo, dispostas não como uma exposição hermética, mas como um fluxo contínuo que reflete uma mente inquieta.

Esta abordagem, segundo reportagem da ARTnews, é mais do que um exercício estético; é um manifesto. Marino propõe um contraponto direto à lógica do mercado de arte contemporânea, que ele vê como superficial e movido por modismos. Para ele, colecionar é um diálogo com 5.000 anos de história, não apenas com os últimos três anos, que hoje dominam o interesse de muitos.

Uma colagem pessoal

A curadoria da Peter Marino Art Foundation é fluida e pessoal. Se o colecionador acredita que um objeto ficará melhor em outra sala, ele simplesmente o move. A inspiração vem de coleções europeias formadas ao longo de gerações, onde séculos de arte coexistem naturalmente. O resultado é um “amálgama de todas as coisas que ele ama”, nas palavras de seu chefe de gabinete, Curtis Clarizio. Não há hierarquia entre um vaso Tiffany, uma pintura vienense do século XX ou uma escultura de Rashid Johnson.

O espaço físico colabora para essa sensação. A fundação justapõe salas grandiosas, como a Cathedral Gallery com seu pé-direito duplo, com ambientes de escala doméstica e intimista. A intenção é clara: a arte não está ali para ser reverenciada a distância, mas para compor um ambiente vivo, em constante transformação, onde afinidades inesperadas entre artistas e épocas podem ser descobertas pelo observador atento — e pelo próprio dono da casa.

A crítica ao 'mercado quente'

A filosofia de Marino se torna explícita em sua aversão ao jargão do mercado. Embora atento aos preços, ele rejeita ser guiado pelo que outros consideram desejável. Quando galeristas tentam lhe vender um artista por ser “muito quente”, sua resposta é cortante: “Deveriam vender sapatos”. A frase encapsula seu desprezo pela especulação e pelo hype que, em sua visão, desvirtuam o propósito da arte.

Seu método de aquisição é o oposto da urgência das feiras e leilões. Marino se dá uma semana. Se a obra em questão não sai de sua cabeça, “manhã, tarde e noite”, é um sinal de que deve comprá-la. É um teste de resistência contra o impulso, uma aposta na longevidade do próprio desejo. Essa paciência é o que lhe permite enxergar valor em um Robert Nava — um queridinho do mercado — não pelo status, mas pela forma como suas criaturas míticas dialogam com o espaço que ele criou.

O que emerge da fundação não é apenas uma coleção de objetos valiosos, mas uma aula sobre critério. Em um mundo obcecado pela novidade e pela validação externa, a abordagem de Marino é um lembrete de que o valor mais duradouro da arte talvez resida na convicção de um olhar que se recusa a seguir a manada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews