A América Latina emergiu como a região de maior crescimento em inclusão financeira globalmente desde 2022, impulsionada significativamente pela digitalização e pela adoção de sistemas de pagamento instantâneo, como o Pix no Brasil. Segundo o Índice Global de Inclusão Financeira de 2026, elaborado pela Principal Financial Group (PFG) em parceria com o Centre for Economics and Business Research (Cebr), a pontuação da região saltou de 32,6 para 44,8 pontos, um avanço expressivo que a coloca acima de seu desempenho anterior, embora ainda abaixo da média global de 52 pontos.

O Motor da Transformação: Pagamentos Instantâneos e Digitalização

O relatório destaca que a expansão de sistemas de pagamentos instantâneos e o aumento do acesso à internet foram os principais catalisadores dessa melhora. No Brasil, o volume de transações em tempo real per capita teve um crescimento impressionante de 565% entre 2021 e 2024. Paralelamente, o uso de dinheiro em espécie em relação ao PIB recuou, sinalizando uma migração para o digital. O Brasil, juntamente com a Argentina, atingiu o teto do índice em volume de transações instantâneas, um feito compartilhado apenas com Coreia do Sul e Tailândia. Essa digitalização não se limitou a um único país; a Argentina, por exemplo, registrou um aumento de 767% em suas transações instantâneas no mesmo período. A conectividade também melhorou na região, com a pontuação de acesso à internet subindo 12 pontos desde 2022.

Brasil em Destaque, mas com Ressalvas

O Brasil se posiciona como o país latino-americano mais bem colocado no ranking geral, ocupando a 24ª posição entre 42 mercados, com uma nota de 52 pontos, alinhada à média global. Seu desempenho é particularmente forte nos pilares de apoio do sistema financeiro (12º lugar global) e de empregadores (13º lugar). Contudo, o país apresenta uma fraqueza notável no pilar de apoio governamental, onde figura na 35ª posição, entre os dez últimos. Um dos pontos de atenção é a complexidade do sistema de tributação corporativa, no qual o Brasil aparece como último colocado. Apesar de manter sua pontuação geral, o país caiu uma posição no ranking em relação ao ano anterior, indicando a necessidade de atenção contínua para não perder terreno.

Desafios Regulatórios e Estratégicos

Um dos maiores obstáculos identificados é o descompasso entre a rápida evolução da infraestrutura digital e a lentidão da estrutura regulatória na América Latina. A região apresenta a segunda menor pontuação global em indicadores de proteção ao consumidor, com a pontuação de alguns países como Colômbia, Chile, Argentina e México caindo significativamente. A governança de inteligência artificial (IA), um novo indicador na edição deste ano, também revela um hiato regional, com a média da América Latina em 45,4 pontos, contra 63,3 mundialmente. O Brasil, embora com o melhor resultado regional em IA (19º), ainda demonstra que há um caminho a percorrer para se alinhar às potências globais.

O Futuro da Inclusão Financeira na Região

O relatório classifica o Brasil como um "incumbente em risco", possuindo infraestrutura digital robusta, mas uma estratégia nacional menos abrangente que outros mercados. A Argentina enfrenta um desafio semelhante. Em contraste, a Colômbia surge como um potencial líder futuro, ao lado de países como Arábia Saudita e Reino Unido, graças a iniciativas como o sistema de pagamentos instantâneos Bre-B e seu marco de open finance. O desafio para países como Brasil e Argentina é sustentar o ritmo de avanço. A pesquisa sugere que, sem estratégias nacionais mais sólidas, o sucesso atual pode não se traduzir em liderança futura. A inovação em pagamentos e finanças digitais precisa ser acompanhada por acesso mais amplo, proteção ao consumidor e regulamentação ágil para garantir a inclusão financeira sustentável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea