O debate sobre o populismo ganhou contornos de urgência no cenário político contemporâneo. Em uma conversa publicada pela Persuasion, o sociólogo e autor Frank Furedi defende o populismo como um movimento essencial para a vitalidade democrática, enquanto o cientista político Yascha Mounk expressa preocupações sobre suas implicações para a saúde das instituições democráticas.
Furedi, autor de "In Defense of Populism", argumenta que o populismo surge como resposta a uma "abordagem seletiva" em relação à democracia e à liberdade. Ele observa uma tendência crescente em que a democracia é vista como falha quando seus resultados desagradam a certos grupos, especialmente quando a "democracia majoritária" é tratada com desconfiança. O sociólogo relata uma experiência pessoal em Amsterdã, onde sua defesa da democracia como um valor inegociável, mesmo quando contrária a suas próprias visões, foi recebida com surpresa e ceticismo por uma audiência educada. Essa observação o levou a investigar a proliferação de livros que alertavam para os "perigos da democracia", evidenciando uma crise de confiança nas instituições e nos processos democráticos tradicionais.
A Crise de Representação e o "Espírito do Populismo"
Um dos fatores cruciais para o surgimento do populismo, segundo Furedi, é a crescente polarização política das últimas duas décadas. Esse fenômeno leva as pessoas a se isolarem em suas próprias bolhas informacionais, tratando oponentes políticos não como concidadãos ou adversários, mas como inimigos. Essa dinâmica cria um ambiente de "fantasia" sobre os adversários, onde o populismo é frequentemente rotulado como "fascista adjacente" ou uma ameaça iminente à sociedade. Tal demonização, argumenta Furedi, legitima a rejeição de decisões democráticas majoritárias. Ele cita o exemplo de ativistas ambientais radicais que, em sua urgência, desconsideram a necessidade de convencer a maioria, acreditando que um pequeno percentual de adesão é suficiente. Essa mentalidade, segundo o sociólogo, pode levar a uma visão distorcida da realidade e a decisões perigosas.
O caso da Hungria, governada por Viktor Orbán, é frequentemente citado como exemplo de "retrocesso democrático". No entanto, Furedi contrapõe essa narrativa lembrando que a oposição venceu eleições em Budapeste e que Orbán, ao perder, aceitou a derrota e transferiu o poder. Embora reconheça a existência de problemas como corrupção no país, Furedi sugere que essas questões não são qualitativamente diferentes das encontradas em muitas outras partes da Europa. A narrativa polarizada, em sua visão, confere a permissão para considerar a democracia como dispensável.
O Populismo como Defesa Cultural e a Crítica de Mounk
Yascha Mounk, por sua vez, concorda com Furedi sobre a tendência de desvalorizar a democracia quando os resultados não são favoráveis. Ele também reconhece a "paradoja da tolerância" de Karl Popper, mas critica a interpretação simplista que a utiliza para justificar a censura de quem discorda. Mounk enfatiza que a defesa da democracia exige a defesa de suas regras, mas não a supressão de opiniões divergentes.
Ao discutir a definição de populismo, Furedi aponta que a maioria dos estudos é escrita por seus opositores, e que os próprios autodenominados "populistas" raramente usam o termo para se descrever, preferindo rótulos como "conservador". Ele argumenta que o termo "populismo" foi "sequestrado" por seus detratores, dominando a narrativa. Historicamente, o populismo esteve mais ligado à esquerda, mas hoje, em sua análise, a principal manifestação tende a ser a "defesa cultural" – a preservação de tradições, valores e modos de vida ameaçados. O "espírito do populismo", para Furedi, emerge não pela força dos partidos, mas pela "deslegitimação dos partidos legados", criando um vácuo que anseia por solidariedade, pertencimento e voz.
O Anti-Pluralismo como Risco Democrático
Mounk questiona se a "defesa cultural" não seria mais característica de movimentos populistas de direita, como os de Marine Le Pen ou Giorgia Meloni, e se rotular figuras como Jean-Luc Mélenchon ou Hugo Chávez como populistas não seria um "erro categorial". Furedi, respondendo, distingue entre populismo de esquerda e direita, mas insiste que ambos buscam dar voz a grupos não representados. Ele cita Podemos e Syriza como exemplos de populistas de esquerda, mas pondera que o fracasso desses movimentos pode ter sido a falta de atenção às "necessidades culturais" e ao "desejo por um lar e significado" da sociedade.
Para Mounk, a definição de populismo vai além de uma ideologia específica; é um "modo de fazer política" caracterizado por dois elementos: anti-elitismo e anti-pluralismo. O anti-elitismo, que aponta a elite como a fonte dos problemas, pode ser justificado em muitos contextos, inclusive em campanhas como a de Obama em 2008. Contudo, o anti-pluralismo – a crença de que "apenas eu represento o povo" – é o que Mounk considera perigoso para a democracia. Essa característica, presente em figuras como Orbán, Trump, Chávez e Mélenchon, leva à deslegitimação de oponentes, tratados como traidores ou inimigos, o que pode minar a liberdade de expressão e a independência das instituições.
Perguntas em Aberto sobre a Definição e o Futuro
Furedi, ao abordar a questão do pluralismo, argumenta que a acusação de anti-pluralismo contra os populistas é exagerada. Ele sugere que os "oponentes do populismo" demonstram mais hostilidade ao pluralismo, citando exemplos de tentativas de silenciar discussões acadêmicas legítimas. Para ele, o "espírito do populismo" é uma força poderosa e crescente que reflete um anseio genuíno por segurança cultural e representação, algo que os partidos tradicionais falharam em prover.
Mounk, embora simpático a alguns pontos, como a importância do controle territorial e a crítica a certas formas de política identitária, mantém sua reserva ao termo "populismo". Ele defende que o que Furedi descreve como populismo é, na verdade, um "conservadorismo de senso comum" ou "nacional-conservadorismo", que pode ser defendido sem abraçar o anti-pluralismo inerente à definição de populismo. A discussão sublinha a complexidade do termo e a necessidade de distinções claras para analisar os desafios democráticos atuais.
A polarização e a desconfiança nas elites continuam a moldar o debate político global. A forma como os movimentos populistas se definem e são definidos por seus oponentes determinará, em grande medida, o futuro da representação democrática e a saúde das instituições em diversas nações.
Source · Persuasion





