A cena artística de Portland, no Oregon, tenta encontrar um novo fôlego com a trienal Converge 45, um evento que, como o nome sugere, busca atrair o mundo da arte para o paralelo 45. A edição mais recente, intitulada “Here, To you, Now”, tem curadoria da nova-iorquina Lumi Tan e se espalha por 16 locais da cidade.
A premissa é forte. O título é uma referência ao romance “Always Coming Home” (1985) de Ursula K. Le Guin, uma das mais célebres autoras da cidade. A ideia é explorar a tensão entre a linguagem escrita — permanente, “lá, para qualquer um, a qualquer tempo” — e a falada — imediata, “aqui, para você, agora”. No entanto, segundo uma análise do portal ARTnews, o resultado é um “sucesso misto”, onde a ambição conceitual nem sempre se traduz nas obras expostas.
Uma promessa literária
A curadora Lumi Tan propõe um desafio aos 28 artistas participantes: “imaginar outras formas de viver enquanto se permanece ancorado no presente”. A inspiração em Le Guin é um ponto de partida potente, especialmente para uma cidade que, segundo a própria curadora ouviu de artistas locais, “precisa de um comeback”. A cena artística de Portland enfrenta o aumento dos aluguéis e a escassez de financiamento, um cenário agravado desde a pandemia.
O evento se posiciona como um catalisador para essa retomada, reunindo artistas de grandes centros como Nova York e Los Angeles com mais da metade de talentos locais. A intenção é nobre, mas a crítica aponta uma dificuldade em conectar a profundidade da tese curatorial com muitas das obras apresentadas.
A realidade do concreto
Um dos pontos frágeis da execução, segundo a reportagem, foi a escolha dos locais. Em vez de explorar espaços inusitados que contassem a história de Portland aos visitantes, a organização optou majoritariamente por galerias e instituições de arte — os chamados “cubos brancos”. A experiência, para a imprensa convidada, resumiu-se a ir de um espaço asséptico a outro, perdendo a oportunidade de uma imersão real na cidade.
Essa escolha parece sintomática da desconexão maior. Enquanto o conceito pedia uma arte imediata e presente (“aqui, para você, agora”), a apresentação em ambientes genéricos enfraqueceu o potencial de diálogo com o contexto urbano e social de Portland.
A questão que paira sobre a Converge 45 não é se a arte pode ajudar na recuperação de uma cidade, mas como. A trienal de Portland mostra que uma curadoria conceitualmente rica não é suficiente quando a execução não consegue aterrar as ideias no tecido complexo e desafiador da própria cidade que busca servir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





