O governo português decidiu recomprar uma peça estratégica de sua infraestrutura. Através da estatal Parpública, o Estado adquiriu a participação de 13,7% que o bilionário espanhol Amancio Ortega, dono da Inditex, mantinha na Redes Energéticas Nacionais (REN), a gestora das redes de eletricidade e gás do país. A venda foi feita pelo family office de Ortega, a Pontegadea.

A operação marca o retorno do Estado português ao capital da REN doze anos após sua privatização e é enquadrada como uma questão de soberania energética. A leitura, contudo, é mais complexa. O movimento ocorre em um momento crítico de transição para fontes renováveis, onde o controle sobre as redes de transmissão se torna uma alavanca de poder. A questão é o preço e o alcance dessa soberania recém-adquirida.

Soberania a preço de mercado

O custo da transação não foi divulgado oficialmente, mas reportagens da imprensa portuguesa, como o Jornal Expresso, estimam o valor em cerca de €380 milhões. Se correto, o montante representaria um prêmio de 17% sobre o valor de mercado das ações antes do acordo — um negócio bastante atrativo para Ortega, mas questionável para os cofres públicos portugueses. Críticos apontam que o Estado já dispunha de mecanismos regulatórios para influenciar decisões na REN, sem a necessidade de um desembolso tão significativo.

O pano de fundo é a crescente preocupação europeia com o controle estrangeiro de infraestruturas críticas. No entanto, a relação de Portugal com o capital chinês é antiga e pragmática, remontando à crise da Zona do Euro em 2011, quando investimentos de Pequim foram cruciais para a estabilidade de várias empresas locais. A recompra da fatia de Ortega, portanto, parece menos uma manobra anti-China e mais uma tentativa de reequilibrar a mesa de acionistas.

O tabuleiro ibérico e o sócio chinês

A relevância da REN transcende as fronteiras de Portugal. Com a crescente interconexão energética na Península Ibérica, materializada em projetos como a linha Minho-Galiza, que ampliou a capacidade de intercâmbio elétrico com a Espanha, as decisões tomadas em Lisboa têm impacto direto no sistema espanhol. Ter o Estado português de volta à mesa de deliberações é um fator de estabilidade para toda a região.

Apesar do esforço, o principal acionista da REN continua sendo a gigante chinesa State Grid, que controla 25% do capital. A participação do governo português garante um assento e uma voz, mas não o controle. Enquanto isso, Amancio Ortega demonstra que sua tese de investimento em infraestrutura regulada segue firme: ele saiu da REN, mas mantém 5% da Redeia, a operadora da rede elétrica espanhola, onde é o segundo maior acionista, atrás apenas do Estado espanhol.

No fim, a operação é um retrato das complexas decisões que marcam a geopolítica da energia. Portugal pagou para ter uma voz mais ativa na gestão de um ativo seu, mas o jogo de poder na rede ibérica continua a ser disputado entre Lisboa, Madri e, de forma decisiva, Pequim. A soberania foi parcialmente reconquistada, mas a um custo que alimenta o debate sobre sua real efetividade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka