A indústria de previdência privada no Brasil atingiu um marco expressivo, superando a marca de R$ 1,7 trilhão sob gestão. Quando somados aos planos fechados, o montante alcança R$ 3 trilhões, consolidando o setor como um pilar que já representa 30% do Produto Interno Bruto nacional. Segundo Samer Serhan, sócio da JiveMauá, o setor deixou para trás a imagem de uma simples "poupança turbinada" para se consolidar como um veículo de investimento completo.

Essa transformação reflete uma mudança estrutural profunda, impulsionada tanto pela evolução regulatória quanto por uma nova postura dos gestores. O que antes era restrito a produtos bancários de baixo rendimento, hoje se posiciona como uma ferramenta estratégica para preservação de poder de compra e ganho patrimonial de longo prazo.

A evolução das regras do jogo

O avanço da previdência privada foi viabilizado por marcos regulatórios fundamentais nos últimos anos. As resoluções CNSP-363 e 364 permitiram que o investidor definisse a forma de recebimento da renda apenas na proximidade da aposentadoria, eliminando a rigidez contratual de décadas anteriores. Essa flexibilidade é crucial em um cenário econômico volátil, onde as necessidades do investidor mudam drasticamente com o passar do tempo.

Simultaneamente, a resolução 4.444 de 2015 foi o divisor de águas para a arquitetura aberta. Antes restrito ao cardápio dos grandes bancos, o investidor passou a ter acesso a produtos de gestoras independentes, forçando uma competição por qualidade e performance que elevou o patamar de toda a indústria.

Crédito estruturado como protagonista

A consolidação normativa ocorrida em 2022, através da resolução 4.993, trouxe clareza sobre a alocação em diferentes classes de ativos. Gestoras como a JiveMauá passaram a explorar com maior eficiência os limites regulatórios em instrumentos como os Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs) e debêntures de infraestrutura. A natureza do passivo previdenciário, caracterizado pelo longo prazo, encontra simetria perfeita com projetos que oferecem receitas estáveis por décadas.

O uso de crédito estruturado transformou a previdência em um motor de alocação sofisticada. Ao integrar ativos com indexação à inflação e durações alongadas, os gestores conseguem entregar retornos mais resilientes, protegendo o capital contra as oscilações típicas do mercado brasileiro.

Tensões e o futuro da regulação

Embora o setor tenha avançado, a indústria já sinaliza a necessidade de novas flexibilizações. A discussão sobre elevar o limite de 25% para FIDCs, migrando para um controle por emissor em vez de um teto global, ganha força entre os especialistas. O objetivo é permitir que a previdência absorva ainda mais o crédito corporativo de alta qualidade, que se provou resiliente mesmo em ciclos negativos.

Para reguladores e competidores, o desafio reside em equilibrar a sofisticação dos ativos com a segurança necessária aos segurados. A transição para uma previdência baseada em ativos reais exige maior transparência e monitoramento contínuo dos riscos de crédito.

Perspectivas de longo prazo

O futuro da previdência privada no Brasil dependerá da capacidade do mercado de continuar inovando em produtos e da disposição regulatória em acompanhar as demandas de uma base de investidores mais educada. A grande questão é se a indústria conseguirá manter a resiliência dos ativos enquanto escala para volumes ainda maiores de capital.

A consolidação deste setor como um motor de investimento sofisticado parece ser um caminho sem volta, mas a sustentabilidade desse crescimento será testada nos próximos ciclos econômicos. O mercado observa atentamente se a flexibilização das regras permitirá um novo salto de eficiência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney — Onde Investir