A Faria Lima, coração financeiro do Brasil, observa com cautela a disputa presidencial e seus reflexos nas contas públicas. Bancos, gestoras e investidores avaliam que o eleito terá a tarefa hercúlea de demonstrar, antes mesmo de assumir em janeiro, como pretende conciliar as promessas feitas durante a campanha com cortes de despesas necessários para conter a trajetória ascendente da dívida pública. Para o mercado, a ausência de um novo ajuste fiscal robusto implica em endividamento crescente e juros elevados, um cenário que sufoca famílias e empresas.
O dilema se agrava ao considerar que o aperto fiscal pode impactar benefícios e políticas de renda e emprego defendidas pelo atual governo, especialmente em um ano eleitoral. Alberto Ramos, diretor de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs, destacou em relatório que "a falta de controle de gastos minou seriamente a credibilidade das metas fiscais e contribuiu para uma economia superaquecida e superendividada". A dívida bruta do governo, que atingiu 82,9% do PIB em agosto, caminha para fechar o ano em 83,1%, com projeções de continuidade dessa alta nos próximos anos, segundo o banco.
A Kinea Investimentos, gestora do grupo Itaú Unibanco, resume o desafio: quem vencer herdará um dos maiores ajustes fiscais desde a redemocratização. A expectativa do mercado é clara: a eleição não se encerra em outubro, mas sim "quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta", conforme expresso em sua carta de setembro.
Um Cenário de Tensão e Polarização
O cenário eleitoral em si adiciona uma camada de complexidade. Com pesquisas indicando uma disputa apertada e polarizada entre os principais candidatos, a abstenção pode ser decisiva. O Citi, por exemplo, não descarta a possibilidade de a definição ocorrer já no primeiro turno, dada a alta rejeição de ambos os candidatos e o potencial para "votos estratégicos" que as pesquisas podem não captar totalmente. A avaliação do governo atual, que registra 48% no segundo turno contra 45% do oponente, segundo o Datafolha, sugere que não há "gordura eleitoral suficiente para o mercado abandonar o hedge", como aponta Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos. Essa incerteza leva parte dos investidores a manter aplicações que se beneficiam da desvalorização do real, como opções de câmbio atreladas à alta do dólar. A executiva observa que "a urna ainda não abriu, mas a curva de juros já está votando. Pesquisa mede intenção de voto; preço de ativo mede intenção de fuga".
Promessas com Preço: O Custo do Alívio ao Consumidor
As medidas de alívio ao consumidor, embora populares, representam um custo significativo para o Tesouro Nacional. Exemplos como as subvenções federais a combustíveis, que já totalizaram R$ 13,3 bilhões para a Petrobras, evidenciam a pressão sobre as contas públicas. O governo defende essas iniciativas como políticas essenciais de renda, emprego e controle de preços, especialmente diante do impacto de tensões geopolíticas internacionais no preço do barril de petróleo. No entanto, novas promessas de campanha com efeito imediato nos preços dos ativos podem gerar um "choque de expectativas" e, consequentemente, interromper o ciclo de cortes da taxa Selic, como adverte a Kinea.
Os programas dos candidatos apresentam abordagens distintas para as contas públicas. Enquanto um propõe manter o arcabouço fiscal atual, focando no crescimento econômico, o outro sugere reformular as regras, com ênfase em superávits e limites de gastos para os Três Poderes. A divergência se estende ao tema tributário, com propostas que variam desde a reestruturação da reforma tributária para reduzir o IVA até a defesa de sua implementação com medidas de justiça fiscal. Contudo, um ponto em comum é a ausência de metas quantitativas claras para as contas públicas em ambos os programas.
O Tamanho do Aperto Fiscal e as Limitações Estruturais
As projeções para o Orçamento de 2027 indicam um superávit primário simbólico, segundo a Kinea. Simulações da gestora apontam a necessidade de um saldo próximo de 2% do PIB para estabilizar a dívida, um objetivo considerado "muito improvável no curto prazo" por analistas como Ramos, do Goldman Sachs. A pressão sobre os juros pagos pela dívida já é considerável, equivalendo a 8,9% do PIB nos 12 meses até agosto. Além disso, questões como a inclusão gradual de precatórios fora da regra de gastos a partir de 2027 e um Congresso fragmentado, que retém parte relevante do orçamento discricionário, limitam o controle do Executivo sobre a despesa.
A conjuntura internacional também impõe restrições. A alta dos juros nos Estados Unidos, com o Fed aprovando aumentos e os títulos do Tesouro americano superando 5%, fortalece o dólar e atrai capital para países emergentes, pressionando os juros brasileiros. Para o Daycoval, a condução fiscal a partir de 2027 é o principal ponto de atenção, com potencial para alterar significativamente o prêmio embutido nos juros futuros.
Perguntas em Aberto e o Caminho para 2027
O calendário legislativo apertado exige que as medidas fiscais sejam aprovadas no primeiro semestre para valerem em 2027, com o debate no Congresso devendo iniciar antes da posse. A Kinea prevê que um "ataque ao fiscal primeiro" permitirá ao governo navegar melhor o restante do mandato, com um cenário-base de crescimento de 1%, inflação de 4,7% e Selic em 12,5% ao fim de 2027, pressupondo um corte de cerca de 1,5% do PIB anunciado logo no início. A agenda do vencedor inclui também negociações internacionais, como a revisão de tarifas americanas. Contudo, as contas públicas permanecem no centro do debate, e a falta de detalhes sobre a implementação das medidas e a composição da equipe econômica são pontos de atenção que podem gerar mudanças nas expectativas do mercado.
O futuro econômico do Brasil dependerá crucialmente da capacidade do próximo governo em encontrar um equilíbrio sustentável entre atender às demandas eleitorais e impor a disciplina fiscal necessária para garantir a estabilidade macroeconômica e o crescimento a longo prazo. A definição virá com nomes e números, e o mercado observará atentamente os primeiros passos de quem assumir a cadeira presidencial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





