A busca por fontes de energia renovável que superem a intermitência do sol e do vento tem levado a indústria a olhar para baixo, especificamente para o interior da crosta terrestre. A Quaise Energy, startup sediada nos Estados Unidos, anunciou uma nova fase de testes para seu sistema de perfuração baseado em ondas milimétricas, com o objetivo de acessar reservatórios geotérmicos de alta temperatura. O projeto, batizado de Project Obsidian, está localizado nas proximidades do vulcão Newberry, em Oregon, uma região escolhida pela proximidade do calor geológico à superfície.

Segundo reportagem do El Confidencial, a tecnologia emprega girotrons, dispositivos capazes de emitir feixes eletromagnéticos de 105 GHz. Diferente das brocas mecânicas tradicionais, que sofrem desgaste severo e falham sob pressões e temperaturas extremas, a solução da Quaise propõe vaporizar a rocha sem contato direto. A expectativa é que, ao atingir profundidades superiores a quatro quilômetros, a empresa consiga acessar calor suficiente para gerar eletricidade de forma contínua, visando uma operação em escala real até 2030.

O desafio da perfuração profunda

A energia geotérmica tem sido historicamente limitada a regiões onde o calor é facilmente acessível, como na Islândia ou em zonas de atividade vulcânica intensa. O maior obstáculo para a expansão dessa matriz tem sido a barreira técnica da perfuração. À medida que o poço se aprofunda, a temperatura e a dureza da rocha aumentam exponencialmente, tornando o uso de brocas convencionais proibitivamente caro e ineficiente devido aos constantes reparos e substituições de equipamentos.

Ao utilizar ondas milimétricas, a Quaise Energy contorna a limitação do desgaste físico. Testes realizados em Houston e Marble Falls, no Texas, demonstraram que o sistema é capaz de vitrificar ou erodir a rocha, transformando-a em pó que é removido por pressão de ar. Esse método híbrido, que combina perfuração convencional nas camadas superficiais e a tecnologia de girotrons nas zonas mais profundas, representa uma mudança de paradigma na exploração do subsolo.

Mecanismos de transferência térmica

O funcionamento do sistema baseia-se na entrega de alta potência energética diretamente no ponto de perfuração. Com um girotron de 1 MW, a empresa planeja atingir profundidades de um quilômetro em um poço de 215,9 mm de diâmetro. A física por trás do processo é a interação da radiação eletromagnética com a estrutura molecular do material rochoso, que resulta em erosão ou vaporização direta.

A transição para o uso de guias de onda reforçadas, peças fundamentais para transportar essa energia até o fundo do poço, é um marco crítico para o sucesso do projeto. A capacidade de manter a integridade estrutural dessas guias sob condições de alta pressão é o que separa a teoria da viabilidade comercial. Se bem-sucedido, o método permitiria que plantas geotérmicas fossem instaladas em quase qualquer lugar do mundo, transformando ativos de energia em recursos onipresentes.

Implicações para o setor energético

A escala proposta pela Quaise, de plantas na casa dos gigavatios, sugere um impacto significativo na transição energética global. Para reguladores e concessionárias, a promessa de uma fonte de energia limpa, constante e independente das condições climáticas é um ativo estratégico valioso. No entanto, o custo de implementação inicial e a necessidade de comprovar a segurança em zonas de atividade geológica exigirão um escrutínio rigoroso de órgãos ambientais.

Para o ecossistema de startups de energia, o sucesso desta tecnologia pode abrir caminho para o reaproveitamento de infraestruturas de campos de petróleo e gás desativados. A capacidade de converter poços existentes em usinas geotérmicas seria um passo monumental, reduzindo drasticamente o custo de capital e o tempo de construção de novas unidades de geração de energia limpa.

O horizonte de 2030

O sucesso do Project Obsidian em Oregon servirá como o teste definitivo para a tecnologia. A meta de atingir temperaturas de 315 °C a 365 °C a 4,8 quilômetros de profundidade é ambiciosa e exigirá uma execução precisa das operações de campo. A incerteza reside na capacidade de escalar o sistema de girotrons para operar de forma ininterrupta em ambientes hostis.

O mercado observará atentamente os resultados da próxima fase de testes. A viabilidade econômica, em última análise, ditará se essa tecnologia será um nicho de exploração científica ou um pilar da infraestrutura energética das próximas décadas. A jornada para acessar o calor interno da Terra está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech