Em 2026, a Harvard University Press publica “The Book of Genocides”, uma graphic novel da artista e acadêmica Dana Mashoian Walrath. A obra narra, em traços que remetem a rascunhos em carvão, a história de dez genocídios, dos povos originários das Américas aos Rohingya, passando pelo Holocausto e pelo Camboja.
O livro, porém, é mais do que um catálogo do horror. Segundo a publicação Hyperallergic, que teve acesso à obra, seu principal argumento é uma investigação sobre a própria palavra “genocídio”. O trabalho de Walrath explora como um termo legal criado para ter moralidade universal é constantemente sequestrado e instrumentalizado por estados, ONGs e pela mídia, transformando-se em um campo de batalha semântico.
A empatia como método
Para construir sua narrativa, Walrath parte de uma experiência pessoal: o genocídio armênio, vivenciado por sua família. A avó da autora se escondeu enquanto soldados otomanos assassinavam seu bisavô. Essa intimidade com o trauma serve como porta de entrada para o que a análise da Hyperallergic descreve como uma tentativa de “empatia épica”.
O formato de graphic non-fiction é central para essa abordagem. Cada capítulo combina a história ilustrada do evento com retratos de vítimas e poemas construídos a partir de textos censurados (blackout poems). A estratégia não é apenas informar, mas confrontar o leitor com o abismo moral de forma visceral, buscando uma conexão que transcende a análise puramente factual.
A palavra em disputa
O núcleo intelectual do livro reside na desconstrução do termo “genocídio”. Walrath revisita a história de Raphael Lemkin, o sobrevivente judeu do Holocausto que cunhou a palavra em 1944. A obra expõe uma contradição fundamental: o mesmo Lemkin que perdeu 49 parentes e buscou uma definição universal para o crime hesitou em apoiar uma petição que definia a violência sistêmica contra a população negra nos Estados Unidos como genocídio.
Esse paradoxo, argumenta a autora, não foi uma anomalia, mas um sintoma de como a definição sempre esteve em disputa, servindo a interesses específicos. A análise se mostra atual ao citar a instrução do New York Times para que seus jornalistas evitassem o termo ao cobrir os eventos em Gaza, demonstrando que a batalha pela palavra continua acirrada.
Ao final, “The Book of Genocides” não oferece respostas fáceis. Seu objetivo, na leitura da Hyperallergic, é reimaginar um universalismo conturbado em face da polarização crescente. É um argumento sobre os limites da linguagem e a necessidade da arte para dar forma ao que, muitas vezes, parece indizível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





