A Renfe, operadora estatal de trens da Espanha, colocou um número no seu valor para a sociedade: €14,2 bilhões. O montante, que engloba benefícios sociais, econômicos e ambientais, foi divulgado pela própria companhia em um relatório apresentado durante a Semana Europeia da Mobilidade, segundo reportagem da Forbes España.

Mais do que um exercício contábil, o movimento é uma tese. Em um mundo que debate o tamanho e a função do Estado, a Renfe tenta provar que seu valor não pode ser medido apenas pela última linha do balanço. A empresa busca quantificar as externalidades positivas que, tradicionalmente, são consideradas intangíveis.

O cálculo do intangível

A cifra de €14,2 bilhões é a soma de várias partes. O relatório atribui €1,19 bilhão ao "valor social externo líquido", que inclui fatores como coesão territorial e tempo poupado em congestionamentos. Outros €4,3 bilhões vêm do "valor interno líquido", justificado pela estabilidade de seus 21 mil empregos. O impacto ambiental positivo, focado em descarbonização, foi calculado em €598 milhões.

A análise da Renfe argumenta que, para cada euro gasto com fornecedores, a empresa gera €2,1 de riqueza na economia espanhola, mobilizando mais de €8 bilhões em sua cadeia produtiva. A leitura aqui é clara: a companhia se posiciona não como um centro de custo, mas como um motor de desenvolvimento, uma narrativa poderosa contra argumentos puramente fiscalistas de privatização.

O modelo e suas implicações

O relatório é uma peça de comunicação estratégica. Ao traduzir benefícios difusos — como a conveniência de morar em áreas com custo de vida menor graças ao trem suburbano — em euros, a Renfe cria uma métrica de impacto palpável. O documento estima, por exemplo, que a redução da congestão urbana gera €579 milhões em tempo recuperado para a sociedade.

Naturalmente, a metodologia por trás desses cálculos é o ponto nevrálgico. Trata-se de um auto-relato, não de uma auditoria independente. Ainda assim, o exercício da Renfe convida a uma reflexão relevante para o Brasil: como seria uma análise semelhante para os Correios ou para o sistema de metrô de uma grande capital? Qual o valor, em reais, da capilaridade logística ou da redução de tráfego?

A iniciativa da operadora espanhola não encerra o debate, mas o qualifica. Em vez de discutir se uma estatal "dá lucro ou prejuízo", a pergunta pode evoluir para qual tipo de valor — e para quem — ela está gerando. É uma mudança de enquadramento que transcende a Espanha e dialoga diretamente com as discussões sobre o papel do Estado no século 21.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España