Mercados financeiros globais operam em forte baixa nesta terça-feira, com investidores reagindo a uma confluência de crises geopolíticas e econômicas. Futuros do S&P 500 indicavam modesta queda antes da abertura de Nova York, após um dia difícil para os mercados na Ásia e Europa. A venda generalizada foi desencadeada pelo petróleo, que atingiu US$111 por barril, um IPO de inteligência artificial na Coreia do Sul que perdeu 30% em sua estreia e o rendimento do título francês de 10 anos, que chegou a 4,94%, um patamar não visto desde 2002.
Crise se aprofunda na Europa
A instabilidade nos mercados europeus foi intensificada pela crise na França, onde o governo impôs toque de recolher em grandes cidades após noites de distúrbios e saques nas ruas de Paris. Vídeos em redes sociais mostraram lojistas aflitos implorando para que jovens parassem de roubar seus estoques, enquanto estes empurravam os comerciantes para pegar sapatos e alimentos de suas prateleiras. Tumultos semelhantes se espalharam por Milão, na Itália. A pressão sobre a França também se refletiu nos mercados de dívida, com o rendimento do título de 10 anos do país atingindo 4,94%, um recorde desde 2002. "As últimas dinâmicas mostram sinais de uma crise da dívida global, não apenas francesa", disse Christoph Rieger, do Commerzbank, em uma nota.
Tensões no Oriente Médio e o preço do petróleo
No Oriente Médio, o preço do petróleo bruto Brent subiu para US$111 por barril, um aumento em relação aos US$108 de ontem, apesar do aumento na oferta de petróleo da região nos últimos dias. A alta foi impulsionada pelo cancelamento, pela Arábia Saudita, de sua principal conferência de investimentos, a Future Investment Initiative – mais conhecida como "Davos no Deserto". O evento, que contaria com a presença de figuras como a presidente da Alphabet, Ruth Porat, o CEO do Goldman Sachs, David Solomon, e o CEO da BlackRock, Laurence Fink, foi cancelado após ataques Houthi ao aeroporto de Riade. Os Houthis também atingiram dois petroleiros no Estreito de Ormuz na sexta-feira passada, elevando o risco geopolítico na principal rota de transporte de petróleo do mundo.
Ceticismo atinge o setor de IA
O otimismo em torno da inteligência artificial também sofreu um golpe. Na Coreia do Sul, o IPO da Elice, provedora de nuvem de IA, despencou 30% em sua estreia. Embora o levantamento de US$150 milhões seja considerado modesto, a forte queda serviu como um sinal de alerta de que o mercado está avaliando com mais rigor a viabilidade e a rentabilidade a longo prazo das empresas de tecnologia.
Esse ceticismo coincide com um início de temporada de lucros decepcionante. Até ontem, 46 empresas do S&P 500 haviam reportado seus resultados do terceiro trimestre. Segundo dados do Bank of America, 80% delas superaram as expectativas, uma taxa inferior aos 88% do segundo trimestre. Pior ainda, os lucros por ação (EPS) ficaram 0,3% abaixo das estimativas dos analistas, segundo o Wells Fargo, marcando "um dos inícios de temporada de EPS mais fracos da história".
Analistas da gestora Glenmede alertam que o boom de investimentos em IA pode se tornar um obstáculo no futuro próximo. O atual ciclo de gastos em capital (capex) tem inflado os lucros do S&P 500 em cerca de 9% em 2026. Isso ocorre porque o capex é reconhecido imediatamente como receita pelas empresas que o recebem (fabricantes de chips, por exemplo), mas depreciado ao longo de anos pelas empresas que o gastam. A partir do próximo ano, esses custos de depreciação começarão a pesar nos balanços, e o inevitável arrefecimento do boom de capex pode se tornar um obstáculo para os lucros até 2028.
Um cenário de incerteza
A combinação de tensões geopolíticas, inflação energética e um otimismo mais cauteloso em relação à IA pinta um quadro complexo para os próximos meses. A escalada dos preços do petróleo e a instabilidade na Europa criam um ambiente de incerteza sem precedentes, levantando questões sobre a resiliência dos mercados a múltiplos choques e sobre como os bancos centrais reagirão.
Para os investidores, a capacidade das empresas de tecnologia de traduzir o pesado investimento em IA em crescimento de lucro sustentável será o fator determinante para a recuperação da confiança. A forma como a Arábia Saudita gerenciará sua política de petróleo e a capacidade da França de restaurar a ordem pública serão observadas de perto, tornando a diversificação e a análise criteriosa dos fundamentos ainda mais cruciais em meio a um cenário de volatilidade crescente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




