A identificação precisa de figuras em retratos históricos é uma tarefa árdua, repleta de suposições e descobertas posteriores que podem reescrever narrativas estabelecidas. Um exemplo notório dessa complexidade é o caso de retratos atribuídos a Jean-Étienne Liotard, artista do século XVIII. Catriona Seth, professora de literatura francesa, utilizou um retrato infantil de Maria Antonieta para a capa de um livro sobre a rainha francesa. Anos depois, uma pesquisa mais aprofundada revelou que a figura retratada não era Maria Antonieta, mas sim sua irmã, Maria Carolina. A chave da identificação foi a insígnia usada pela modelo: a Ordem da Cruz Estrelada. Embora Maria Antonieta viesse a receber a honraria mais tarde, ela não a possuía em 1762, período em que Liotard produziu uma série de retratos dos filhos da Imperatriz Maria Teresa da Áustria em Viena. Essa descoberta sublinha a natureza contínua da pesquisa e a importância de questionar atribuições antigas, mesmo em obras de arte consolidadas.

Novos Olhos sobre Velhas Imagens

Inspirada por filtros de redes sociais que alteram a aparência das pessoas, Seth ponderou sobre o potencial de tecnologias digitais para auxiliar na identificação de figuras históricas. A ideia, embora inicialmente limitada em sua aplicação direta, motivou uma colaboração interdisciplinar. Marie-Eve Celio-Scheurer, curadora sênior do Musée d’art et d’histoire (MAH) de Genebra, que abriga a maior coleção de retratos de Liotard, buscou o auxílio de David-Olivier Jacquet-Chiffelle, professor de ciências forenses e identificação na Universidade de Lausanne. Jacquet-Chiffelle, por sua vez, conectou a equipe a Sébastien Marcel, especialista em biometria e reconhecimento facial. Juntos, eles formaram o projeto experimental INTERART, uma colaboração entre o MAH, a Universidade de Oxford, o Idiap Research Institute e a Escola de Justiça Criminal da Universidade de Lausanne, com o objetivo de investigar se a inteligência artificial e as tecnologias biométricas modernas poderiam ser aplicadas à identificação de indivíduos em pinturas artísticas históricas.

O Desafio da Pintura versus Fotografia

Os sistemas atuais de reconhecimento facial, desenvolvidos primariamente para fotografias, são capazes de comparar rostos mesmo com variações de pose, iluminação, expressão, idade e qualidade da imagem. No entanto, sua aplicação a pinturas apresenta desafios únicos. As obras de arte, diferentemente das fotografias, podem apresentar grandes variações de estilo e técnica, mesmo quando retratam o mesmo indivíduo. O cerne do projeto INTERART reside na criação de modelos de IA que consigam reconhecer as características faciais constantes de um indivíduo, independentemente das modificações introduzidas pela prática artística. Uma condição crucial para a análise biométrica eficaz de uma pintura é que ela tenha sido criada diretamente a partir do modelo vivo, garantindo maior fidelidade à aparência real. A tecnologia, neste estágio inicial, não oferece respostas definitivas, mas sim limiares de probabilidade, o que, segundo Celio-Scheurer, mantém o projeto intrigante e promissor.

Implicações e Limitações para a Pesquisa

A aplicação de IA na identificação de figuras em retratos históricos tem o potencial de sugerir associações que poderiam passar despercebidas aos pesquisadores. Museus frequentemente possuem coleções de retratos de "mulheres desconhecidas" ou "homens desconhecidos". A criação de bancos de dados de retratos com identificações confirmadas, incluindo detalhes sobre a idade do retratado e o contexto da sessão, poderia permitir que algoritmos sugiram possíveis identidades para obras não identificadas, funcionando como um ponto de partida para investigações futuras. Contudo, tanto Seth quanto Celio-Scheurer enfatizam que essas ferramentas não substituem o olhar treinado do historiador de arte ou a pesquisa tradicional. A IA atua como um suporte, uma ferramenta adicional que pode fornecer indicações valiosas, mas a interpretação final e a validação do conhecimento continuam sendo tarefas humanas. O desenvolvimento futuro dessa tecnologia pode expandir significativamente suas capacidades.

O projeto INTERART, ainda em seus estágios iniciais, demonstra um caminho promissor para a interseção entre tecnologia e história da arte. A exposição "Liotard & Maria Antonieta: Rostos sob Investigação" no MAH de Genebra apresenta não apenas os desenhos em questão, mas também o diálogo entre a arte do passado e as ferramentas do futuro. A capacidade de desvendar a identidade por trás de um pincel ou de um traço de giz, com a ajuda da inteligência artificial, abre novas e fascinantes possibilidades para a compreensão e apreciação do patrimônio artístico mundial, desafiando o que pensávamos saber sobre obras e figuras históricas.

Com reportagem de Brazil Valley

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