A Universitat de les Illes Balears (UIB) oficializou a entrada de seu grupo de pesquisa em Química Bioinorgânica e Bioorgânica (Quimibio) no projeto Arqueomallornauta, uma iniciativa científica dedicada à escavação e preservação do navio romano de Ses Fontanelles. A medida visa assegurar a estabilização química dos restos de madeira recuperados do leito marinho, um passo fundamental para evitar a degradação acelerada do material após séculos de submersão.

Segundo informações divulgadas pela instituição, a intervenção técnica é decisiva para o futuro do patrimônio subaquático. O projeto, que conta com a colaboração do Consell de Mallorca, da Universitat de Barcelona e da Universidad de Cádiz, além do Centro de Buceo de la Armada, concluiu recentemente a extração integral da embarcação, encerrando uma operação iniciada em março.

O desafio da conservação subaquática

A preservação de madeiras retiradas de ambientes marinhos exige um rigoroso controle químico. Quando o material é removido do mar, a rápida cristalização de sais e a oxidação podem destruir a estrutura celular da madeira, tornando-a quebradiça e instável. O grupo Quimibio, portanto, atuará diretamente nas piscinas de dessalinização instaladas no Castell de Sant Carles, onde as peças permanecerão submersas por cerca de um ano e meio.

Este processo de dessalinização controlada é a etapa que precede o tratamento definitivo. Após a estabilização inicial nas instalações locais, o material será transferido para o laboratório ARQVAtec, vinculado ao Museo Nacional de Arqueología Subacuática de Cartagena. Lá, os especialistas aplicarão tratamentos complexos de restauração para garantir que a estrutura romana possa ser estudada e preservada em longo prazo, mantendo a integridade histórica da descoberta.

Interdisciplinaridade na arqueologia moderna

A integração de químicos ao projeto Arqueomallornauta reflete uma mudança de paradigma na arqueologia subaquática, que hoje exige uma abordagem multidisciplinar para ser bem-sucedida. O grupo Civitas, da UIB, que já liderava a análise histórica e contextualização dos achados, agora trabalha em conjunto com os químicos para garantir que os dados científicos acompanhem o tratamento físico dos artefatos.

Essa sinergia entre diferentes áreas do conhecimento é essencial para projetos de alto impacto. A transferência de expertise da academia para a conservação patrimonial demonstra o papel das universidades como guardiãs do legado histórico, aplicando métodos de análise química avançada em desafios que, até pouco tempo atrás, eram tratados puramente sob uma ótica historiográfica ou descritiva.

Implicações para o patrimônio mediterrâneo

O sucesso da operação de Ses Fontanelles estabelece um precedente importante para futuras intervenções no Mediterrâneo. A cooperação entre instituições acadêmicas e órgãos de defesa naval mostra que a arqueologia de grande escala depende da logística militar e da precisão científica. Para os pesquisadores, a preservação do navio é um teste de eficiência na gestão de recursos públicos aplicados à cultura.

A longo prazo, a estabilização bem-sucedida do pecio permitirá novas descobertas sobre as rotas comerciais da época romana e as técnicas de construção naval da antiguidade. O caso reforça a necessidade de protocolos de conservação que possam ser replicados em outros sítios arqueológicos submersos, onde a urgência da degradação ambiental frequentemente supera a capacidade técnica de resposta das instituições.

Perspectivas e incertezas

Embora a extração tenha sido concluída com sucesso, o longo período de dessalinização mantém os pesquisadores em alerta. A estabilidade dos materiais ao longo dos próximos dezoito meses será o principal indicador da eficácia das técnicas aplicadas pela equipe da UIB. A incerteza sobre como a madeira reagirá a variações sutis no ambiente controlado das piscinas exige monitoramento contínuo.

O futuro do navio de Ses Fontanelles dependerá da transição harmoniosa entre o tratamento em Mallorca e a restauração final em Cartagena. A comunidade científica aguarda os primeiros relatórios sobre a eficácia da dessalinização, que poderão validar novos métodos para o tratamento de madeiras arqueológicas em condições similares.

A preservação do navio romano de Ses Fontanelles transcende o valor arqueológico imediato, consolidando um modelo de colaboração científica que une instituições acadêmicas e órgãos governamentais em torno da proteção do patrimônio subaquático. O rigor técnico aplicado nesta fase inicial será o determinante para que o achado permaneça disponível para o estudo das próximas gerações.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España