A previsão de vendas de fertilizantes no Brasil para 2026 sofreu um corte significativo, consolidando um cenário de cautela para o setor agropecuário nacional. Segundo relatório divulgado pelo Rabobank, a demanda deve recuar 8,2% em relação ao recorde de 2025, atingindo 45,1 milhões de toneladas. O volume projetado é o menor desde 2022, ano em que o mercado global de insumos foi severamente abalado pelo início do conflito entre Rússia e Ucrânia.

O ajuste nas projeções reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais que pressionam a rentabilidade do produtor rural. De acordo com o banco, a inadimplência no agronegócio atingiu níveis recordes, com dados do Banco Central apontando que 13,3% dos volumes emprestados a taxas de mercado apresentam dificuldades de pagamento. Esse cenário de endividamento, somado aos preços elevados dos insumos, limita a capacidade de investimento das propriedades rurais brasileiras.

O impacto da instabilidade geopolítica

A volatilidade nos preços de fertilizantes em 2026 foi impulsionada, em grande parte, pelo risco de bloqueio do Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de energia e produtos químicos. A escalada das tensões geopolíticas envolvendo o Irã e o Oriente Médio trouxe temores de elevação nos custos dos fretes e do petróleo, impactando diretamente o preço da ureia. Embora o banco note que os preços da ureia tenham retornado a patamares mais estáveis após os picos de incerteza, o efeito sobre o comportamento de compra do agricultor foi imediato.

O Rabobank traçou um paralelo entre a atual volatilidade e o choque de 2022, observando que a trajetória de alta e queda dos preços da ureia seguiu um padrão temporal semelhante. Contudo, a estabilização do fosfato monoamônico (MAP) em níveis de preço mais elevados mantém uma pressão adicional sobre o custo de produção, dificultando o planejamento financeiro das safras futuras e desestimulando a compra antecipada de insumos.

Mecanismos de pressão no mercado interno

O mecanismo de retração da demanda não é causado apenas pelo custo do produto ou por receios de escassez, mas pela deterioração do balanço financeiro dos produtores. O endividamento elevado reduz a margem de manobra para a aquisição de tecnologia, forçando uma racionalização do uso de fertilizantes. Esse comportamento é uma resposta direta à necessidade de preservar o caixa em um ambiente de juros ainda desafiadores para o setor.

Além disso, o mercado de exportação de milho mostra sinais de arrefecimento. O Rabobank projeta uma queda de 3 milhões de toneladas nas exportações brasileiras em 2026, totalizando 39 milhões de toneladas. A valorização do real frente ao dólar, aliada à forte concorrência com produtores dos Estados Unidos e da Argentina, retira competitividade do cereal brasileiro no mercado internacional, impactando a receita que seria reinvestida na produção.

Tensões na cadeia de suprimentos

As implicações dessa queda na demanda reverberam por toda a cadeia de suprimentos, desde as tradings de insumos até a logística interna. O custo do frete rodoviário continua sendo um gargalo relevante, encarecendo ainda mais o produto posto na fazenda. Para os reguladores e agentes financeiros, o monitoramento da inadimplência no campo torna-se a prioridade, dado o risco sistêmico que o volume de dívidas representa para as instituições que financiam o agronegócio.

Enquanto o mercado externo enfrenta dificuldades de escoamento, o consumo interno de milho apresenta resiliência, com previsão de alta de 5% para 97 milhões de toneladas. Esse crescimento é sustentado pela demanda das indústrias de ração e de etanol, que se tornam um refúgio para a produção nacional em momentos de baixa competitividade nas exportações.

Incertezas sobre a recuperação

O que permanece incerto é a velocidade com que o produtor rural conseguirá reequilibrar suas contas e retomar o patamar de compras de insumos. A dependência de fatores externos, como a estabilidade do petróleo e a taxa de câmbio, sugere que a volatilidade continuará a ditar o ritmo dos investimentos nos próximos ciclos agrícolas.

O setor aguarda agora sinais mais claros de alívio no custo do crédito e uma possível acomodação dos preços das commodities para avaliar se a retração de 2026 será um evento isolado ou o início de um período de maior austeridade no campo. A dinâmica entre o consumo interno de milho e a capacidade de exportação será o ponto principal a observar nos próximos relatórios.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times