O fotolivro 'Red Horse', do artista ucraniano Sasha Kurmaz, foi anunciado como o vencedor do Kraszna-Krausz Photography Book Award de 2026. A obra, publicada pela Éditions Images Vevey, foi escolhida por um júri composto por especialistas de peso, incluindo a curadora Fiona Rogers e a editora Diane Smyth, consolidando-se como uma das reflexões mais urgentes sobre a invasão russa na Ucrânia.
Com cerca de 800 páginas, o livro não se limita a ser um registro documental convencional. A obra utiliza uma abordagem diarística que mistura fotografias, anotações pessoais e objetos recolhidos nas ruas de Kyiv, questionando como a guerra é percebida e consumida pelo público externo. Segundo o júri, o projeto se destaca pela capacidade de evocar a instabilidade da vida sob conflito.
Uma crônica visual da subjetividade
A escolha de 'Red Horse' pelo júri do prêmio Kraszna-Krausz sublinha uma mudança nas expectativas do mercado editorial de fotografia. Em um ecossistema muitas vezes dominado por livros de mesa de centro, com acabamentos luxuosos e narrativas lineares, a obra de Kurmaz impõe uma experiência sensorial diferente. O uso de papéis finos e uma extensão robusta reforçam a sensação de urgência e o peso emocional que o artista carrega desde o início do conflito em 2022.
O valor do livro reside, em grande medida, na sua recusa em oferecer uma visão totalizante da guerra. Ao optar pela fragmentação, Kurmaz mimetiza a própria experiência de viver sob constante ameaça, onde a realidade é composta por vestígios visuais e memórias imediatas. Essa estratégia artística transforma a leitura em um exercício de empatia e desconforto, afastando-se do distanciamento clínico que muitas vezes acompanha as coberturas jornalísticas do front.
O mecanismo da memória e do trauma
O processo de construção de 'Red Horse' funciona como um mecanismo de processamento do trauma coletivo e individual. Ao incorporar materiais encontrados e notas pessoais, o autor desmantela a barreira entre o observador e o participante. A análise editorial sugere que o sucesso da obra reside na sua honestidade bruta: ao mostrar o caos, Kurmaz evita a estetização excessiva da violência, focando na fragilidade humana que persiste apesar da destruição física.
Essa dinâmica de montagem, que lembra a técnica de colagem, permite que o leitor navegue por uma cronologia não linear. O resultado é um documento que se mantém vivo e relevante, funcionando como um arquivo de sobrevivência. Para o mercado de publicações, o reconhecimento desta obra indica que o público e os críticos estão cada vez mais receptivos a narrativas que priorizam a profundidade emocional em detrimento da perfeição técnica ou do formato comercial tradicional.
Implicações para o ecossistema editorial
O prêmio Kraszna-Krausz, ao destacar um trabalho de natureza tão política e pessoal, reafirma a importância do livro como um repositório de memória histórica. Para competidores e editores, a vitória de Kurmaz serve como um lembrete de que a relevância cultural de uma publicação está diretamente ligada à sua capacidade de interrogar as fronteiras do meio fotográfico. A visibilidade conferida pela fundação britânica deve ampliar o debate sobre como artistas em zonas de conflito conseguem utilizar a arte para documentar o presente.
Além disso, o prêmio, que Kurmaz divide com Onyeka Igwe — vencedor na categoria de imagem em movimento —, destaca a diversidade de abordagens que a fundação busca incentivar. Para o mercado brasileiro, que possui uma forte tradição em fotolivros, o exemplo de 'Red Horse' reforça a necessidade de valorizar projetos que, embora complexos em sua execução física, conseguem capturar o espírito de seu tempo através de uma visão autoral inegociável.
Desafios e perspectivas futuras
O que permanece em aberto é como a recepção de obras como a de Kurmaz influenciará as futuras submissões ao prêmio. A tendência aponta para uma valorização de projetos menores e mais experimentais, que desafiam os padrões da indústria. Observar como o público reagirá aos eventos de lançamento no V&A South Kensington será um termômetro importante para medir o alcance dessas narrativas.
A fundação, ao abrir as inscrições para 2027 em novembro, continuará a ser um dos principais barômetros do que é considerado inovador no campo da fotografia. A questão, portanto, não é apenas se a fotografia pode mudar a percepção da guerra, mas quanto tempo o mercado levará para integrar essa urgência em suas estratégias de curadoria.
O reconhecimento de 'Red Horse' não encerra a discussão sobre a representação da guerra, mas oferece um marco importante para entender como o trauma se traduz em cultura. O impacto real da obra será medido não apenas pelos prêmios recebidos, mas pela forma como ela continuará a ser consultada como um registro autêntico da história contemporânea, desafiando futuras gerações de fotógrafos a encontrarem suas próprias linguagens para o indizível.
Com reportagem de Brazil Valley





