O setor elétrico mexicano encontra-se em uma encruzilhada estrutural. Enquanto o país celebra a retomada de investimentos em geração renovável, com a promessa de incorporar mais de 32.000 megawatts à matriz, a infraestrutura de transmissão necessária para escoar essa energia avança em um ritmo visivelmente inferior. A Comissão Federal de Eletricidade (CFE) projeta um ambicioso plano de modernização para o período 2025-2030, orçado em 163,540 milhões de pesos, mas a execução prática revela uma desconexão preocupante entre o papel e o canteiro de obras.

Segundo reportagem da Expansión MX, o risco é o surgimento de um gargalo que limite a entrega efetiva de energia aos centros industriais, como o Bajío. A disparidade entre a velocidade de adjudicação de novos parques solares e eólicos — que totalizam 7.411 megawatts — e o cronograma de expansão das redes de transmissão cria um cenário onde a eletricidade pode ser gerada, mas não distribuída de forma eficiente aos consumidores finais.

O abismo entre planejamento e execução

O histórico recente de projetos de transmissão no México sugere que o desafio não é apenas financeiro, mas operacional. Diversas obras listadas como prioritárias desde 2020, como o aumento da capacidade de transformação na região metropolitana de Guadalajara e na zona de Puerto Peñasco, não foram entregues nos prazos originalmente estabelecidos. A plataforma de gestão Scoee, desenhada para agilizar processos administrativos, tem sido palco de sucessivos adiamentos em licitações fundamentais.

Essa ineficiência na execução gera uma incerteza que impacta diretamente a atratividade do setor. Quando os cronogramas de transmissão e geração não coincidem, o sistema perde o equilíbrio, forçando o governo e as empresas a arcarem com custos de ineficiência operacional. A falha em sincronizar esses dois pilares da infraestrutura elétrica transforma projetos de geração, que deveriam ser ativos estratégicos, em potenciais gargalos subutilizados dentro da rede nacional.

Dinâmicas de risco no sistema elétrico

O mecanismo de risco é claro: a transmissão exige horizontes de planejamento e construção muito mais longos do que a geração. Especialistas do setor apontam que, sem a entrega paralela das linhas de alta tensão, a rentabilidade dos projetos de geração é colocada em xeque. A CFE atua hoje como contratante de obras de construção, mas a complexidade da integração sistêmica demanda uma coordenação que, até o momento, tem se mostrado insuficiente diante da urgência da transição energética.

O dilema central é evitar que a energia produzida fique "presa" em regiões com superávit, incapaz de chegar aos polos de consumo deficitários. A dependência crescente do Bajío em relação à energia gerada no noroeste exemplifica a vulnerabilidade da rede. Se a infraestrutura não acompanhar a curva de oferta, o sistema elétrico mexicano corre o risco de sofrer com instabilidades operacionais crônicas e custos elevados para o governo.

Stakeholders e o futuro do mercado

Para investidores e empresas, o cenário exige cautela. Reguladores precisam equilibrar a pressão por energia limpa com a realidade física da rede. Para os consumidores industriais, a incerteza sobre a confiabilidade do suprimento pode afetar decisões de expansão produtiva no país. O sucesso da transição energética mexicana depende, fundamentalmente, da capacidade do Estado em fechar a lacuna entre as metas de geração e a realidade das subestações.

O Brasil, que também lida com desafios de expansão de transmissão para escoar energia renovável, observa atentamente como o México gerencia esses prazos. A lição que emerge é que a transição energética não se resume à capacidade instalada, mas sim à resiliência da rede nacional em integrar novas fontes de forma previsível e segura.

Perguntas sem resposta

O que permanece incerto é se a CFE conseguirá acelerar os processos de licitação e entrega das obras pendentes antes que a nova carga entre em operação entre 2028 e 2029. O monitoramento dos próximos editais será o principal termômetro para medir a viabilidade do plano de expansão 2025-2030.

O mercado aguarda, portanto, sinais claros de que a governança da infraestrutura será tratada com a mesma prioridade que a política de geração. A capacidade do sistema mexicano de se manter competitivo dependerá, em última instância, da integridade física e operacional das linhas de transmissão que ainda estão no papel.

O descompasso entre o otimismo dos investimentos e a realidade da infraestrutura é o teste definitivo para a infraestrutura elétrica do México nos próximos anos. Resta saber se o planejamento será capaz de superar o histórico de atrasos, ou se o país terá que lidar com o custo de uma energia que não consegue chegar ao seu destino.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX