O artista digital Refik Anadol, conhecido por suas monumentais obras de arte generativa, acaba de inaugurar seu mais ambicioso projeto: o DATALAND, um museu permanente e vivo no coração de Los Angeles. Localizado no complexo The Grand LA, projetado por Frank Gehry, o espaço estreia com a exposição “Machine Dreams: Rainforest”, uma imersão que utiliza inteligência artificial para traduzir em tempo real os sinais vitais de florestas tropicais ao redor do mundo.

Mais do que uma galeria, o empreendimento de Anadol e sua parceira Efsun Erkilıç se posiciona como um novo paradigma para a experiência cultural. A proposta é criar um “diálogo omni-sensorial contínuo”, onde visão, audição, olfato e até paladar são orquestrados por algoritmos. A iniciativa, no entanto, chama a atenção não apenas pela complexidade tecnológica, mas por suas profundas integrações comerciais, que borram as fronteiras entre arte, entretenimento e produto de consumo.

A máquina de sentidos

O coração de DATALAND é um motor de dados massivo. Segundo reportagem do Cool Hunting, o estúdio de Anadol passou mais de três anos coletando dados, escreveu mais de 10 milhões de linhas de código e gravou 100 mil horas de áudio para alimentar a experiência. A exposição inaugural conecta-se em tempo real a 20 florestas tropicais, capturando informações sobre clima, umidade e padrões de vento. Esses dados são processados por modelos de IA e projetados em telas com 1,5 bilhão de pixels, criando o que Anadol chama de uma “imaginação algorítmica”.

Mas a inovação não é apenas visual. O som é distribuído por 300 canais, e o olfato ganha um protagonismo inédito através de uma parceria com a L'Oréal Luxe. A equipe de fragrâncias da gigante de cosméticos desenvolveu 12 aromas, que vão do cheiro da terra após a chuva (Petrichor Memoria) a conceitos abstratos como “a essência sintética” do código digital. As fragrâncias são liberadas por um dispositivo vestível, desenvolvido pelo estúdio de Anadol, que utiliza uma tecnologia de difusão a seco para criar uma bolha olfativa pessoal, que se dissipa antes da próxima interação, evitando a saturação do ambiente.

Arte, entretenimento ou produto?

A colaboração com a L'Oréal vai além de um simples patrocínio. A empresa participou ativamente do processo criativo, mergulhando no conceito para desenvolver produtos que se integram à narrativa artística. O movimento espelha uma tendência crescente na qual a arte imersiva se torna uma plataforma para marcas de luxo se conectarem com um público sofisticado de uma maneira que a publicidade tradicional não consegue mais alcançar. A arte vira, assim, um canal de distribuição para uma nova categoria de produto.

Essa lógica se estende ao paladar. Para completar a experiência, Anadol colaborou com a chocolatier de Los Angeles Valerie Gordon. A partir de “receitas” geradas por IA com base nos dados da floresta, Gordon criou uma linha exclusiva de bombons. Embora tenha usado a IA como inspiração, a chocolatier ressalta a necessidade da curadoria humana para equilibrar a química e a expressão. “É um experimento em como casar o trabalho da IA com o trabalho humano”, afirmou Gordon. O resultado é uma caixa de bombons vendida como parte da visita, transformando um elemento da obra em um souvenir de luxo.

DATALAND é, sem dúvida, um marco técnico e estético. O projeto materializa a visão de uma arte que não é mais estática, mas um organismo vivo e responsivo. Contudo, seu modelo de negócio, que integra de forma nativa a criação de produtos de consumo, levanta uma questão fundamental sobre seu futuro. Estamos testemunhando o nascimento de um novo tipo de instituição cultural ou a versão mais sofisticada do parque temático da economia da experiência, onde a arte é o pretexto para uma jornada de consumo multissensorial?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Cool Hunting