A medicina moderna dispõe de um arsenal farmacêutico impressionante para tratar doenças, mas o sistema de saúde falha em um ponto crucial: ajudar os pacientes a parar de tomar os remédios. Iniciar uma medicação é um processo relativamente simples. Interrompê-la, no entanto, é um desafio complexo e pouco assistido.

Essa dificuldade não é um acaso, mas uma característica estrutural do setor. Conforme aponta um editorial da publicação New Scientist, toda a cadeia — da pesquisa ao modelo de receita da indústria farmacêutica — tem poucos incentivos para estudar e apoiar a descontinuação de tratamentos. O conceito de "desprescrição" permanece à margem da prática clínica.

O viés da prescrição

O problema começa na origem, nos ensaios clínicos. Tais estudos são, em sua maioria, de curto prazo, desenhados para comprovar a eficácia e a segurança de um novo fármaco por algumas semanas ou meses. Raramente investigam os efeitos do uso prolongado ou, mais importante, qual o momento e a maneira correta de cessar o tratamento. Não há recompensa financeira para uma farmacêutica que pesquisa como os clientes podem deixar de usar seu produto.

O resultado é uma lacuna de evidências que se reflete na ausência de diretrizes clínicas robustas. Antidepressivos são um exemplo claro: eficazes para muitos, mas uma vez que cumprem seu papel, não há um caminho claro para a retirada. Médicos e pacientes ficam sem um mapa, e o tratamento se estende por anos, muitas vezes por inércia e falta de alternativas seguras.

A cascata de pílulas

A questão vai além da saúde mental. A crise dos opioides nos Estados Unidos, por exemplo, foi alimentada em parte por uma cultura de prescrição liberal e pela falha em revisar as doses dos pacientes. Medicamentos como betabloqueadores ou redutores de acidez estomacal, benéficos a curto prazo, podem acarretar problemas sérios com o uso contínuo.

Isso frequentemente leva a um fenômeno conhecido como "cascata de prescrição": os efeitos colaterais de um remédio são tratados com um segundo, cujos efeitos colaterais podem exigir um terceiro. O ciclo é especialmente perigoso para idosos e pacientes com múltiplas comorbidades, que acabam acumulando uma lista de medicamentos sem uma estratégia clara de desmame.

Poucas indústrias se interessam em ajudar os clientes a parar de usar seus produtos, mas a saúde deveria ser a exceção. É preciso desenvolver estudos, diretrizes e suporte para que a desprescrição seja uma opção tão válida e segura quanto a prescrição inicial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist