Mais de 260 pesquisadores reuniram-se na semana passada no campus do Politecnico di Milano para debater os caminhos e os riscos técnicos da remoção de dióxido de carbono (CDR). O evento, que marca a quarta edição de uma série iniciada em 2018, consolidou um consenso entre a comunidade científica: a tecnologia de remoção não é apenas um complemento, mas um pilar necessário para manter a viabilidade das metas climáticas globais diante da crescente dificuldade de descarbonização em setores como aviação e agricultura.

Segundo dados apresentados durante o encontro, o mundo opera atualmente com uma capacidade de remoção de 2,2 bilhões de toneladas de CO2 por ano, quase inteiramente baseada em técnicas convencionais de uso da terra, como o reflorestamento. Para alinhar o planeta às trajetórias compatíveis com o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris, especialistas como a Dra. Morgan Edwards, autora principal do relatório “State of CDR”, projetam a necessidade de escalar essa capacidade para 8,8 bilhões de toneladas anuais até 2050. A urgência reside no fato de que 2024 foi o primeiro ano a romper o teto de 1,5°C, tornando o conceito de “overshoot” — o ultrapassar temporário da meta seguido por um retorno — uma realidade central na modelagem climática atual.

O conceito de overshoot e a restauração planetária

O debate sobre o overshoot evoluiu significativamente nas últimas três décadas. Se entre 1995 e 2005 o tema era tratado como uma hipótese teórica improvável, hoje ele é formalmente integrado aos cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O professor Massimo Tavoni, do RFF-CMCC, descreve o esforço necessário para retornar as temperaturas ao patamar de 1,5°C como o “maior projeto de restauração da Terra” já concebido pela humanidade.

Contudo, a física climática impõe limites severos à eficácia imediata dessas soluções. Pesquisas apresentadas por especialistas como o Dr. Momme Butenschön indicam que, mesmo em cenários de emissões líquidas negativas, o oceano apresenta uma inércia térmica profunda. As camadas superiores do mar levariam décadas para responder à redução de CO2 atmosférico, enquanto as zonas mais profundas continuariam a sofrer os efeitos do aquecimento e da acidificação por um tempo considerável, independentemente das ações de mitigação iniciadas na superfície.

Limites da remoção baseada na natureza

Atualmente, 99,9% da remoção de carbono é classificada como “convencional”, dependendo quase exclusivamente de florestas. Embora sejam soluções de baixo custo — frequentemente abaixo de US$ 10 por tonelada de CO2 — elas enfrentam desafios graves de escalabilidade e permanência. O conflito pelo uso da terra, que coloca a captura de carbono em competição direta com a produção de alimentos e biocombustíveis, é um gargalo estrutural apontado por diversos especialistas.

Além disso, a resiliência dessas soluções naturais é questionável em um mundo mais quente. Incêndios florestais e distúrbios climáticos podem converter sumidouros de carbono em fontes de emissão, invalidando os créditos gerados. Modelos econômicos, como os apresentados por Barbara Saget, sugerem que a dependência exclusiva de florestas é insustentável a longo prazo, exigindo uma transição urgente para tecnologias de remoção engineered, como a captura direta de ar (DACCS) e a meteorização aprimorada de rochas, que ainda carecem de escala e viabilidade econômica.

Governança e sinais de demanda

Um dos pontos críticos discutidos em Milão foi a ausência de sinais claros de demanda por parte dos governos. O relatório “State of CDR” enfatiza que, apesar de mais de 140 países terem metas de emissões líquidas zero, poucas nações implementaram políticas vinculantes ou incentivos fiscais robustos para a remoção de carbono. A União Europeia destaca-se como a única região com uma meta quantificada e legalmente adotada para remoções no setor de uso da terra, mas o consenso é que o setor privado não suprirá a demanda sozinho.

A falta de padronização metodológica também trava o mercado. O IPCC planeja publicar um relatório sobre metodologias de CDR em 2027, um passo essencial para que países possam relatar essas remoções sob a égide da UNFCCC. A dificuldade, segundo o Dr. Oliver Geden, é regular tecnologias que ainda não operam em escala industrial, criando um desafio de governança: como certificar a eficácia de algo que ainda está em fase de desenvolvimento laboratorial ou piloto?

O desafio da aceitação social

Além da viabilidade técnica e econômica, o sucesso da remoção de carbono depende do capital político e da aceitação social. Pesquisas de opinião pública, como as conduzidas pela Dra. Livia Fritz, mostram que o apoio popular a essas tecnologias está condicionado a critérios de justiça procedimental e distributiva. A percepção de que a tecnologia é uma solução “fantástica” ou implausível, conforme observado em levantamentos nos EUA, pode inviabilizar a implementação em larga escala.

O horizonte para os próximos anos exige, portanto, não apenas inovação tecnológica, mas uma integração da CDR em agendas de políticas públicas mais amplas, como saúde e adaptação climática. A transição de um modelo voluntário para um sistema de obrigações e mercados regulados será o teste definitivo sobre a capacidade global de transformar modelos teóricos em uma infraestrutura real de sobrevivência climática.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief