A necessidade global por mecanismos eficazes de remoção de dióxido de carbono (CDR) atingiu um ponto crítico. Segundo a terceira edição do relatório "State of Carbon Dioxide Removal", o mundo precisará quadruplicar suas capacidades de captura de carbono até 2050 para manter viva a possibilidade de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C até o final do século. O estudo destaca que, embora o reflorestamento e a restauração de ecossistemas sejam fundamentais, eles não serão suficientes para compensar a escala necessária de emissões.
Atualmente, a vasta maioria da remoção de CO2, cerca de 99,9%, é realizada por métodos convencionais baseados em terra. Tecnologias mais recentes, como a captura direta de ar e o biochar, ainda representam uma fração minúscula do total, apesar de crescerem a uma taxa anual de 40%. A análise sugere que, sem uma aceleração sem precedentes nessas novas soluções, o hiato entre a ambição declarada pelas nações e a realidade climática continuará a se expandir perigosamente.
O hiato entre ambição e realidade
O relatório diferencia cenários de "ambição atual" e "ambição máxima". No cenário de compromissos nacionais (NDCs) atuais, o mundo projeta remover 5,9 bilhões de toneladas de CO2 até 2050, um volume que, se mantido, resultaria em um aquecimento entre 1,7°C e 2,7°C até 2100. Isso significa que o planeta continuaria a aquecer mesmo após o fim do século, falhando em atingir o balanço de emissões líquidas zero.
Por outro lado, o cenário de maior ambição prevê o escalonamento para 8,8 bilhões de toneladas de CO2 até meados do século. A diferença entre o que os países prometem e o que a ciência aponta como necessário para o Acordo de Paris cria o chamado "CDR gap". A leitura é que cada década de atraso na redução de emissões diretas eleva exponencialmente a carga que as tecnologias de remoção precisarão carregar no futuro, tornando o desafio ainda mais oneroso.
Infraestrutura e o dilema amazônico
Enquanto a comunidade científica debate a remoção de carbono, a preservação dos sumidouros naturais enfrenta pressões estruturais. No Brasil, o governo anunciou um investimento de US$ 75 milhões em uma rodovia que atravessa a floresta amazônica. Embora planos de proteção ambiental tenham sido anunciados, especialistas e ambientalistas expressam receio de que a infraestrutura acelere o desmatamento, contradizendo esforços globais de conservação.
Adicionalmente, o Congresso brasileiro aprovou legislação que restringe o uso de imagens de satélite por agências ambientais para fiscalizar terras desmatadas ilegalmente. O embate entre o direito à defesa dos produtores rurais e a eficácia do monitoramento por satélite coloca em risco a capacidade do país de manter a trajetória de redução do desmatamento, que atingiu níveis baixos desde 2019, mas que ainda apresenta taxas de perda florestal preocupantes.
Impactos climáticos e o peso do El Niño
O fenômeno El Niño, previsto com intensidade "super", adiciona uma camada de instabilidade ao sistema alimentar global. Especialistas alertam que a alteração nos padrões de chuvas e o deslocamento de correntes de jato podem comprometer colheitas em diversas partes do mundo. O calor extremo já é sentido em regiões da Índia e da Europa, onde ondas de calor têm forçado mudanças na rotina de trabalho e acelerado ciclos de colheita de forma atípica.
Este cenário de estresse térmico não afeta apenas a agricultura, mas também a gestão de recursos hídricos. Em locais como o Chile, a concentração de datacenters tem gerado tensões sobre o uso da água em áreas de zonas úmidas sob estresse hídrico, evidenciando como a infraestrutura tecnológica moderna pode competir com a resiliência ecológica local em um mundo mais quente.
Perspectivas e incertezas
A eficácia das políticas climáticas dependerá da capacidade dos governos de integrar a remoção de CO2 em suas estratégias nacionais sem que isso sirva de pretexto para retardar a descarbonização imediata. A preocupação é que o uso de métricas contábeis, como o GWP*, possa mascarar emissões reais de setores como a pecuária, criando uma ilusão de progresso que não se traduz em redução efetiva de temperatura.
O futuro próximo exigirá um equilíbrio delicado entre a expansão da infraestrutura econômica e a proteção de biomas essenciais. A questão fundamental que permanece é se a tecnologia de remoção de carbono conseguirá escalar a tempo de compensar o atraso nas reduções de emissões ou se o custo de mitigação se tornará proibitivo nas próximas décadas.
O cenário exige observação atenta sobre como as nações ajustarão suas NDCs e se os investimentos em "novel" CDR serão de fato priorizados em detrimento de soluções que apenas postergam o problema. A convergência entre desmatamento, estresse climático e a necessidade de tecnologia de ponta define o tom da próxima década de governança ambiental.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





