Em 1881, Pierre-Auguste Renoir capturou um instante de pura inocência e opulência parisiense. "Rosa e Azul, as Senhoritas Cahen d'Anvers" retrata Alice, de cinco anos, e Elisabeth, de seis, em um salão suntuoso, envoltas em rendas e sedas, com bochechas rosadas e cabelos dourados. Este dueto de doçura, como descrito pela autora Catherine Ostler, é o ponto de partida para seu livro "The Renoir Girls". Ostler tece um painel da vida luxuosa da elite judaica parisiense, liderada pela mãe das meninas, Louise Cahen d'Anvers, uma influente figura de salão frequentada por artistas e intelectuais. Ao lado de seu amante e patrono, Charles Ephrussi, que intermediou a encomenda da obra a Renoir, Louise navegava em um mundo de privilégios, onde cada evento social era noticiado. Contudo, sob o brilho da Belle Époque, uma Paris dividida por desigualdades e instabilidade política alimentava um antissemitismo latente, que viria a corroer a vida aparentemente intocável das irmãs.

O Contraste entre o Luxo e a Intolerância

O livro de Ostler expõe a dissonância entre o mundo dourado das Cahen d'Anvers e a crescente hostilidade antissemita na França. Apesar dos direitos civis garantidos após a Revolução Francesa, os resquícios de preconceito se manifestavam em comentários velados e em declarações explícitas, como as de Renoir sobre a mesquinhez do pagamento de Louis Cahen d'Anvers, ou o veneno antissemita do diarista Edmond de Goncourt. A polarização nacional atingiu seu ápice com o Caso Dreyfus (1894-1906), que expôs a fragilidade da integração judaica na sociedade francesa. Enquanto a família e seus círculos mais próximos se posicionavam a favor do oficial judeu injustamente acusado de traição, a sociedade se dividia. Em meio a atentados e assassinatos políticos, os Cahen d'Anvers mantinham-se alheios, imersos na restauração de seu castelo e na preservação de um estilo de vida do século XVIII, enquanto as filhas trilhavam caminhos de assimilação, marcados por reviravoltas.

Destinos Marcados pela História

Elisabeth, a mais velha, converteu-se ao catolicismo e casou-se com um aristocrata sem posses, de quem se divorciou. Alice, a mais aventureira e anglófona, casou-se com o Coronel Charles Townshend em uma cerimônia anglicana. Irène, a irmã mais velha retratada por Renoir em "La Petite Irène" (1880), casou-se com Moïse de Camondo, mas o abandonou para ficar com o chefe de sua cocheira. O encanto da Belle Époque, no entanto, desfez-se abruptamente com a ascensão do nazismo nos anos 1930. O amor das irmãs pela França e seu desejo de pertencimento, demonstrados por sua filantropia, restauração de propriedades históricas e o serviço de Nissim de Camondo, filho de Irène, na Primeira Guerra Mundial, não foram suficientes para protegê-las.

A Sombra do Holocausto

A narrativa de Ostler mergulha na perseguição nazista, revelando o destino sombrio de quatro membros da família, que pereceram em campos de concentração. Elisabeth, idosa e doente, foi traída pelo prefeito da vila onde se escondia e morreu em 1944, a caminho ou em Auschwitz. O legado artístico também foi marcado pela tragédia: "Rosa e Azul" encontra-se hoje no Museu de Arte de São Paulo, enquanto "La Petite Irène", roubada pelos nazistas, foi vendida a um traficante de armas suíço e hoje está exposta no Kunsthaus Zürich, sua doçura contrastando com a devastação que representa.

O que resta da inocência retratada por Renoir quando a história intervém com tamanha brutalidade? A obra, que celebra a beleza e o privilégio de uma era, torna-se um testemunho silencioso da fragilidade da vida e da capacidade humana para a crueldade, convidando à reflexão sobre como a arte pode capturar momentos fugazes de felicidade que, em retrospecto, carregam o peso de futuros sombrios. A memória dessas irmãs, imortalizadas em tela, sobrevive como um lembrete pungente das perdas infligidas pela intolerância.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic