O menino que observava as plantas no jardim da Rua do Leme, no Rio de Janeiro, não sabia que estava plantando as sementes de uma revolução estética. Sob o olhar atento de seu vizinho, o arquiteto Lúcio Costa, o jovem Roberto Burle Marx começou a desenhar não apenas formas, mas uma nova maneira de o Brasil se enxergar. Hoje, o legado desse paisagista transcende o desenho geométrico e alcança a própria identidade botânica do país.
A ruptura com o modelo europeu
Durante décadas, o paisagismo brasileiro foi um eco distante de jardins europeus. O rigor geométrico francês ou o pitoresco inglês eram as referências dominantes, ignorando a exuberância tropical em favor de um controle estético importado. Burle Marx promoveu uma ruptura radical ao trazer a flora nativa para o primeiro plano. Ele não apenas utilizava plantas brasileiras; ele as compreendia em seus habitats, respeitando a ecologia de cada bioma antes mesmo que a conservação ambiental se tornasse um consenso global.
O laboratório a céu aberto
O verdadeiro motor criativo de Burle Marx eram suas expedições. A bordo de uma kombi, acompanhado por cientistas e botânicos, ele desbravava a Amazônia, o Pantanal e a Serra do Cipó. O sítio em Barra de Guaratiba tornou-se um viveiro de mais de 3.500 espécies, um acervo que serviu como laboratório experimental. Ali, ele catalogou descobertas que a ciência oficial ainda não havia nomeado, consolidando uma parceria indissociável entre a arte do paisagismo e a pesquisa botânica rigorosa.
Ética e paisagem como política
Para além da estética, o trabalho de Burle Marx carregava um compromisso ético com a cidade. Seus projetos, do Eixo Monumental de Brasília ao Aterro do Flamengo, foram concebidos como ferramentas de inclusão. A exposição "Plantas em Movimento", em cartaz no Museu Judaico de São Paulo, sugere que essa abertura ao outro e a capacidade de adaptação dialogam com a própria experiência da diáspora, transformando o jardim em um espaço de constante reinvenção.
O futuro da biodiversidade urbana
O que permanece vivo, décadas após a morte do artista, é a urgência de seu método. Em um momento de crise climática, o olhar de Burle Marx sobre a importância dos biomas locais ganha contornos de manifesto. A pergunta que fica é se seremos capazes de manter essa poética do trânsito, onde a natureza não é apenas um adorno, mas o fundamento da nossa convivência urbana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado





