Em visita recente à Casa Cavanelas, localizada em Petrópolis, a arquiteta paisagista Isabela Ono e o arquiteto Thiago Bernardes detalharam o processo de conversão da residência histórica em espaço público. Projetada em 1954, a propriedade representa um raro ponto de intersecção entre a arquitetura de Oscar Niemeyer e o paisagismo de Roberto Burle Marx. A casa, que operou por décadas como refúgio privado, foi doada ao Instituto Burle Marx com o objetivo de abrir as portas ao público em 2028. A transição exige uma adaptação de infraestrutura complexa: transformar uma dinâmica residencial em um complexo institucional capaz de abrigar e expor o acervo de sete décadas de produção paisagística, sem descaracterizar a organicidade da obra original.
A botânica orgânica e a estrutura atípica
O projeto paisagístico da Casa Cavanelas carrega uma particularidade técnica detalhada por Isabela Ono, cujo pai, Haruyoshi Ono, foi parceiro criativo de Burle Marx por trinta anos. Trata-se da única ocasião em que Burle Marx dividiu o paisagismo em dois blocos morfológicos distintos: formas estritamente orgânicas na parte frontal e composições geométricas na parte traseira. A execução original em 1954 exigiu a regeneração natural de um morro até então sem vegetação e o redesenho da forma orgânica de um córrego e açude naturais. O jardim frontal agrupa espécies idênticas para criar massas de cor e textura, utilizando agaves, bromélias, costelas-de-adão, filodendros e a folhagem púrpura da iresine.
Do ponto de vista estrutural, a edificação também apresenta desvios em relação à tipologia mais popularizada de Oscar Niemeyer. Thiago Bernardes observou que a casa utiliza uma estrutura metálica para sustentar a cobertura em curva, contrastando com o imaginário padrão associado ao arquiteto. A composição se apoia em pilares de pedra e muros de pedra portuguesa original, estabelecendo um diálogo tátil com o vale ao redor. A integração entre o interior e o exterior é tamanha que a percepção espacial dilui as fronteiras entre a construção e o ambiente natural, fazendo com que o jardim efetivamente entre na casa.
Intervenção contemporânea e a guarda do acervo
A responsabilidade de inserir um programa institucional em um marco de 1954 coube ao escritório de Thiago Bernardes. A premissa central da intervenção foi a sutileza, evitando qualquer toque direto na estrutura de Niemeyer. Para isso, o novo complexo foi distribuído de forma topográfica. A sede do Instituto Burle Marx — que engloba biblioteca, um pequeno auditório e a infraestrutura de guarda para os croquis de mais de dois mil projetos — foi alocada na cota mais alta do terreno, sob uma praça. A partir desse ponto, o visitante descerá por um plano inclinado ou um pequeno teleférico até a área do café, revelando a casa e o paisagismo de forma gradual.
O pavilhão expositivo exigiu uma solução de camuflagem: a estrutura foi enterrada em um metro para diminuir a altura de seus muros, garantindo que o volume não compita com a residência histórica. A casa de Niemeyer, por sua vez, não será utilizada como galeria ou área de exposição convencional. O planejamento prevê que ela seja mobiliada com peças do início dos anos 1950, funcionando como um diorama que ilustra o modo de morar daquela época.
A conversão da Casa Cavanelas materializa um esforço de preservação de memória conduzido por herdeiros diretos da tradição arquitetônica nacional — Isabela Ono pelo lado de Burle Marx, e Thiago Bernardes, neto de Sérgio e filho de Cláudio Bernardes. Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de propriedades privadas de alto valor histórico para o domínio público qualificado é um gargalo crônico no Brasil, frequentemente esbarrando em custos de manutenção e disputas de espólio. O modelo adotado em Petrópolis, ancorado na criação de infraestrutura paralela para não sobrecarregar a obra original, sinaliza um caminho viável e sofisticado para a gestão de acervos vivos.
Fonte · Brazil Valley | Architecture




