O filme "Weekend", de Andrew Haigh, lançado em 2011, é um marco no cinema queer britânico por uma razão específica e raramente abordada: sua ambientação fora da capital. A primeira imagem do filme, um panorama de Nottingham, já anuncia a intenção de Haigh de afastar-se dos cenários urbanos convencionais. Longe dos arranha-céus de Londres, a paisagem de Nottingham, com suas casas de tijolos e parques arborizados, oferece um pano de fundo distinto que, segundo a crítica, permanece subutilizado no cinema britânico — especialmente no que tange a narrativas queer.
O Poder da Ambientação Regional
A tendência de situar histórias queer britânicas predominantemente em Londres priva o público de explorar a diversidade de experiências em outras regiões do Reino Unido. "Weekend" se destaca por abraçar Nottingham como um personagem em si. A cidade não é apenas um cenário, mas um elemento intrínseco à narrativa. Desde a escolha de locações como os túneis sob as vias expressas e a King's Walk até cenas que capturam a textura cotidiana da cidade, Haigh utiliza a identidade de Nottingham para ancorar a história de Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New). Essa abordagem naturalista e observacional confere autenticidade e profundidade, mostrando que histórias significativas podem florescer longe dos holofotes da capital.
Desafiando Narrativas Homogêneas
Enquanto questões como a escalação de atores heterossexuais para papéis gays ou a predominância de tramas melancólicas no cinema queer são frequentemente debatidas, a homogeneidade de cenários tem sido menos discutida. Filmes como "Pride" e séries como "It's a Sin" utilizam Londres como um símbolo de liberdade e oportunidade, permitindo que personagens queer escapem de realidades opressivas em cidades menores. Embora a vitalidade da vida queer londrina seja um tema válido, a repetição desse padrão pode reduzir a experiência LGBTQ+ britânica a um binário entre o rural e o urbano, ou o tradicional e o liberal. Essa visão perpetua a ideia de que a vida em cidades menores é inerentemente repressiva, associando homossexualidade ao isolamento e à necessidade de fuga.
Nottingham como Palco de Pertencimento
"Weekend" subverte essa expectativa ao apresentar uma comunidade queer vibrante em Nottingham. O filme retrata bares gays movimentados, interações sociais e uma cena artística ativa, como o projeto de áudio de Glen. A narrativa evita a armadilha de retratar a cidade como um lugar de repressão, focando, em vez disso, na possibilidade de pertencimento e construção de família escolhida. Glen, que planeja se mudar para os Estados Unidos em busca de novas experiências, representa o anseio por mudança e autodescoberta. Russell, por outro lado, demonstra que a plenitude e o pertencimento podem ser encontrados em sua cidade natal, contrariando a ideia de que a felicidade queer só é alcançável em grandes centros urbanos. O filme culmina com uma despedida agridoce na estação de trem de Nottingham — Glen parte, Russell fica —, um final que reafirma tanto o valor da conexão vivida quanto o do lugar onde ele construiu sua vida.
Um Legado de Diversidade
Embora outros trabalhos, como "Queer as Folk" em Manchester e filmes mais recentes ambientados em Yorkshire, Newcastle, Sheffield e Dorset, tenham explorado a diversidade geográfica de narrativas queer no Reino Unido, eles ainda são considerados exceções. "Weekend" se mantém, quinze anos depois, como um exemplo notável de como uma ambientação fora de Londres pode enriquecer uma história, oferecendo uma perspectiva única sobre a busca por identidade e conexão. A última imagem do filme, com Russell contemplando as luzes de Nottingham, solidifica a mensagem de que a transformação pessoal não depende necessariamente de uma mudança de lugar, mas pode ocorrer dentro de si mesmo, mesmo em um cenário familiar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





