Enquanto a atenção do mundo da escalada se volta para o Manaslu, onde expedições comerciais se preparam, duas equipes russas embarcam em missões mais solitárias e desafiadoras no Everest (8.848m) e Jannu (7.710m). Em meio a reuniões em Kathmandu, Andrei Vasiliev, Sergey Kondrashkin, Vitaly Shipilov e Natalya Belyankina conseguiram o financiamento necessário para uma expedição ao Everest nas próximas semanas.
"Que início de expedição maluco", comentou Vasiliev. A intenção inicial era seguir a rota usual do Colo Sul, mas a equipe russa busca permissão para escalar por um trajeto diferente. A motivação pode ser financeira: uma permissão de outono na rota normal custa US$ 7.500 por escalador, mas apenas US$ 5.000 para rotas alternativas. A decisão final sobre o percurso será tomada no local, com a equipe voando para Lukla em breve.
Uma Experiência Diferente no Everest
A escalada do Everest como uma equipe isolada, especialmente em uma época em que a montanha está coberta de neve após as recentes tempestades, oferece uma experiência radicalmente distinta da vivida pelos escaladores comerciais na primavera. Completamente sozinhos, os quatro russos terão que navegar o Glaciar Khumbu. Se optarem por seguir em direção ao Western Cwm antes de desviar para sua nova linha, precisarão encontrar seu próprio caminho através do temido Khumbu Icefall.
A equipe não pretende usar oxigênio suplementar. Vasiliev explicou que o objetivo principal é testar seus limites em um "8.000er mais alto". No ano passado, eles realizaram uma nova rota no Manaslu e fizeram duas tentativas anteriores na Face Sul do Cho Oyu, picos que mal ultrapassam a marca dos 8.000 metros. Essa busca por rotas inéditas e o desafio do oxigênio zero destacam um espírito de exploração que contrasta com o modelo de negócios predominante no montanhismo de alta altitude.
O Desafio do Jannu
Paralelamente, outra equipe russa, liderada por Sergey Romanenkov, almeja uma nova rota no formidável Jannu (7.710m), na região do Kangchenjunga. Segundo Anna Piunova, do Mountain Club, a equipe pretende conectar as primeiras ascensões de Langchung Khang (6.786m) e do vizinho Langpo Peak (6.965m). Em seguida, tentarão uma nova rota pelo lado sudoeste do Jannu, alcançando a crista através de um sistema de cascatas de gelo, para então se juntar à linha da primeira ascensão de Lionel Terray em 1962. A descida será pelo mesmo caminho.
A equipe inclui Ivan Artemov, Ivan Volkov, Artem Zhdanov, Konstantin Neumoin, Roman Shilin e Vasily Yagodin, que juntos escalaram o Gasherbrum II em 2024. Seus planos específicos de escalada ainda não foram detalhados, mas Artemov informou que voarão para o Nepal na próxima semana e passarão 40 dias nas montanhas. O Jannu tem sido palco de algumas das melhores expedições de outono nos últimos anos. Em 2023, os americanos Alan Rousseau, Matt Cornell e Jackson Marvell realizaram uma ascensão em estilo alpino pela face norte, e no ano anterior, os franceses Benjamin Vedrines e Nico Jean alcançaram o cume Leste (7.468m), também pela face norte e em estilo alpino, ambas as façanhas premiadas com um Piolet d'Or.
Implicações e o Futuro da Escalada
As expedições russas ao Everest e Jannu neste outono representam um retorno a um tipo de montanhismo de exploração, focado na descoberta de novas rotas e no teste de limites pessoais, em contraste direto com o crescente turismo de massa no Everest. Enquanto a primavera vê a montanha congestionada com escaladores comerciais, muitas vezes dependentes de oxigênio suplementar e guias experientes, o outono oferece uma experiência mais austera e desafiadora.
Essa dicotomia levanta questões sobre o futuro da escalada em alta altitude. O modelo comercial tornou as montanhas mais acessíveis, mas também gerou preocupações sobre segurança, sustentabilidade e o espírito de aventura. As equipes russas, ao optarem por rotas menos percorridas e sem oxigênio, reafirmam a busca por desafios puros, que exigem um nível excepcional de habilidade técnica, resiliência mental e preparo físico. A viabilidade financeira dessas expedições, mesmo com custos de permissão reduzidos, ainda é um obstáculo significativo, limitando a participação a um grupo seleto de atletas dedicados.
Perguntas em Aberto
O sucesso dessas expedições, especialmente a busca por uma nova linha no Everest sem oxigênio, dependerá de uma miríade de fatores, incluindo as condições climáticas, a adaptação dos escaladores à altitude e a capacidade de gerenciar os riscos inerentes a rotas inexploradas. A escolha de uma rota alternativa no Everest pode oferecer um ambiente mais tranquilo, mas também apresenta desafios técnicos e logísticos desconhecidos.
Será fascinante observar como essas equipes russas se sairão em seus respectivos objetivos. Seus feitos, bem-sucedidos ou não, servirão como um lembrete da diversidade de abordagens na escalada de alta altitude e do apelo duradouro dos desafios extremos. A montanha, em sua solidão outonal, será o árbitro final de suas ambições.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ExplorersWeb





