A conta da inteligência artificial chegou para a Salesforce. A gigante de software, um dos maiores evangelistas da IA generativa no mundo corporativo, admitiu que os gastos elevados com modelos de linguagem, especialmente o Claude da Anthropic, são a razão pela qual não elevou sua projeção de margem de lucro para o ano.

Segundo reportagem do The Register, Mike Spencer, vice-diretor financeiro da Salesforce, explicou em uma conferência do Deutsche Bank que a decisão de não revisar para cima a margem anual de 20,1% — mesmo após um trimestre com margem de 20,5% — foi uma consequência direta dos custos com tokens de IA. A estratégia inicial, segundo ele, foi deliberadamente agressiva: liberar o uso do Claude internamente para “ver o que poderíamos quebrar” e acelerar o roadmap de produtos.

Do teste de estresse à otimização

A fase de experimentação irrestrita, contudo, parece ter chegado ao fim. Spencer descreveu o momento atual como um “modo de refinamento”. A nova diretriz é a escolha prescritiva de modelos de IA para tarefas específicas. A leitura é clara: a euforia inicial está dando lugar a uma análise fria de custo-benefício.

A companhia percebeu que não é necessário usar o modelo mais avançado — e caro — para todas as aplicações. Para a grande maioria das tarefas, um modelo de segunda ou terceira geração é suficiente. Essa mudança de mentalidade representa um amadurecimento na forma como as grandes empresas encaram a implementação de IA, saindo da força bruta para a aplicação cirúrgica da tecnologia.

Um portfólio de modelos

A estratégia de otimização da Salesforce passa pela diversificação. Internamente, a empresa já utiliza um leque de fornecedores que inclui OpenAI, Cursor e Claude, e já começa a experimentar com o Grok, da X. Essa abordagem de portfólio não apenas mitiga o risco de dependência de um único fornecedor, mas também cria uma competição interna de custos e performance.

Este movimento não é isolado. A Salesforce afirma ver o mesmo comportamento em sua base de clientes, indicando uma tendência de mercado. A era do “tokenmaxxing” — o uso desenfreado de tokens sem olhar o custo — pode estar com os dias contados, à medida que a indústria busca um equilíbrio sustentável entre inovação e disciplina financeira.

A lição da Salesforce serve como um barômetro para o mercado: a IA generativa é uma ferramenta poderosa, mas seu custo não é trivial. A fase de testes acabou, e a era da eficiência econômica da inteligência artificial está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register