Sam Neill, o ator neozelandês cuja carreira se estendeu por mais de 150 produções, morreu aos 78 anos. A notícia, descrita pela família como “súbita e inesperada”, encerra a trajetória de um artista conhecido tanto por sua versatilidade quanto por uma rara generosidade cênica. Como aponta uma análise do Criterion Daily, um dos temas recorrentes nas homenagens a Neill é seu talento para ceder o holofote, permitindo que suas co-estrelas — frequentemente mulheres como Judy Davis, Isabelle Adjani e Holly Hunter — pudessem brilhar.

O cavalheiro da Nova Zelândia

Nascido na Irlanda do Norte e criado na Nova Zelândia, Nigel John Dermot Neill adotou o nome “Sam” na infância para soar mais amigável. Essa abordagem despretensiosa marcou sua carreira. Seu primeiro grande papel no cinema neozelandês, o thriller político Sleeping Dogs (1977), o estabeleceu como um talento a ser observado. O salto internacional veio com My Brilliant Career (1979), de Gillian Armstrong. No filme, ele interpretou Harry Beecham, um personagem que a crítica da época descreveu como um raro exemplo de “objeto de desejo masculino visto pelos olhos de uma diretora”, uma performance que o consolidou como um galã atípico.

Do galã ao terror

A carreira de Neill, no entanto, foi definida por sua recusa em se ater a um único tipo de papel. O extremo oposto do charmoso Harry Beecham pode ser visto em Possession (1981), de Andrzej Żuławski. No filme, ele interpreta Mark, um marido cuja devastação emocional se transforma em uma histeria abusiva e aterrorizante, uma performance que rivaliza com a intensidade de sua parceira de cena, Isabelle Adjani. Essa capacidade de navegar entre o drama contido, o romance e o horror psicológico se tornou sua assinatura, solidificando um legado de complexidade e profundidade.

Em seus últimos anos, Neill se dedicou à sua vinícola, Two Paddocks, e escreveu um livro de memórias, Did I Ever Tell You This?, após um diagnóstico de câncer. Embora tenha se recuperado, sua reflexão sobre a mortalidade era pragmática. Ele não temia morrer, mas ficaria “irritado” por não poder ver seus netos crescerem e suas oliveiras amadurecerem. Uma perspectiva que resume bem o homem por trás do ator: focado no trabalho, mas com os pés fincados na terra.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Criterion Daily