A Samsung reuniu na Espanha um grupo de especialistas, executivos e representantes do governo para debater o futuro da inteligência artificial. O encontro, batizado de Samsung Innovation Campus Summit, teve como mote “IA para um mundo melhor” e serviu de palco para a companhia sul-coreana reforçar sua visão sobre o tema, com foco em aplicações úteis e responsáveis.

Para além do evento corporativo, o movimento sinaliza uma tese cada vez mais clara entre as gigantes de tecnologia: a corrida pela IA não será vencida apenas com poder computacional ou modelos de linguagem mais sofisticados. A nova fronteira competitiva está na governança, na construção de confiança e na capacidade de traduzir o potencial abstrato da tecnologia em impacto social concreto. Para uma empresa historicamente centrada em hardware, é uma aposta estratégica no software intangível da legitimidade.

Da teoria à prática responsável

O discurso da Samsung, ecoado por sua diretora de marketing na Península Ibérica, Elena Fernández Angulo, é que a IA “está entrando em uma etapa em que já não basta falar de tudo o que pode fazer”. O desafio, segundo ela, é “converter esse potencial em soluções úteis para as pessoas e fazê-lo de forma responsável e confiável”. Essa narrativa se alinha a um movimento mais amplo no setor, onde empresas como Google e Microsoft também investem pesado em comitês de ética e princípios de IA responsável.

A leitura aqui é que, ao liderar a conversa sobre ética e governança, as Big Techs buscam não apenas construir uma imagem positiva, mas também moldar o debate regulatório que se avizinha. Ao promover a colaboração entre setor privado, academia e governo — como visto no evento de Madri —, a Samsung se posiciona como uma parceira na construção desse ecossistema, e não apenas uma fornecedora de tecnologia.

Premiando o impacto real

Para materializar o discurso, a companhia aproveitou o encontro para premiar projetos nascidos em seu programa de formação, o Samsung Innovation Campus. As iniciativas vencedoras dão pistas sobre a estratégia da empresa: focar em aplicações de nicho, mas de alto impacto. Um dos projetos premiados, o 'LiveR', utiliza IA para otimizar a compatibilidade entre doadores e receptores em transplantes de fígado, servindo como ferramenta de apoio à decisão clínica.

Outro projeto reconhecido, o 'ParaTalent Hub', aplica a tecnologia para identificar talentos no esporte paralímpico. Ambos os casos ilustram uma abordagem que foge da disputa direta com os grandes modelos de linguagem de OpenAI ou Google. Em vez disso, a Samsung parece fomentar um ecossistema de soluções especializadas, que resolvem problemas específicos e demonstram o valor prático da IA, reforçando a tese de que o verdadeiro valor da tecnologia está em sua aplicação criteriosa e com supervisão humana.

O esforço é notável, mas lança uma questão para o futuro. A aposta em IA responsável e de impacto social é um pilar estratégico genuíno para o futuro da Samsung ou uma sofisticada campanha de marketing e responsabilidade social corporativa? A resposta definirá o real papel da gigante sul-coreana na próxima década da tecnologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España