O mercado argentino de televisores está sendo redefinido por uma nova fronteira: o tamanho. A Samsung iniciou a comercialização de modelos com a tecnologia Micro RGB que alcançam 115 polegadas — quase três metros de diagonal —, um salto significativo sobre o limite anterior de 98 polegadas. O movimento sinaliza uma aposta clara no segmento premium, onde a corrida não é apenas por mais pixels, mas por mais centímetros na parede da sala.

Segundo reportagem do jornal argentino La Nación, a estratégia vai além do hardware. A tese é que a combinação de telas gigantes com processadores de inteligência artificial pode, finalmente, transformar o televisor de uma “caixa boba” em um verdadeiro centro de comando do lar. A análise aqui é que o aparelho deixa de ser um mero display para se tornar uma plataforma interativa, alterando fundamentalmente os hábitos de consumo de mídia e a dinâmica familiar.

Do filtro ao pixel inteligente

A evolução tecnológica é a base dessa transformação. As telas LED tradicionais dependem de um painel de retroiluminação que atravessa filtros de cor, resultando em pretos que nunca são absolutos. A tecnologia OLED resolveu parte disso com pixels orgânicos autoiluminados. Agora, o Micro RGB representa um novo paradigma: diodos inorgânicos microscópicos, com cerca de 100 micrômetros, que emitem luz e cor próprias, dispensando filtros e prometendo contraste e brilho superiores.

Mas o hardware é apenas metade da equação. O software, embarcado em processadores com IA, é o que dá vida à nova proposta. A inteligência artificial ajusta a imagem e o som em tempo real, adaptando-se ao conteúdo e à luz ambiente. Mais do que isso, ela permite uma interação por voz que busca substituir o celular como a segunda tela. A ideia, segundo Gerardo Presman, diretor da Samsung Argentina, é que o espectador possa fazer perguntas sobre o filme ou consultas cotidianas diretamente à TV, sem interromper a experiência para buscar no smartphone.

O novo padrão argentino

No mercado argentino, a estratégia parece encontrar ressonância. O comportamento de compra mostra uma polarização: enquanto o segmento de entrada ainda se concentra em 43 polegadas, a demanda por telas maiores cresce de forma acelerada. Para a Samsung, o modelo mais vendido já é o de 55 polegadas, que a empresa busca consolidar como o novo padrão de fato. Eventos de grande apelo, como a Copa do Mundo, funcionaram como catalisadores, empurrando consumidores para telas maiores e tecnologias mais avançadas.

Essa ambição, no entanto, esbarra em desafios práticos. A antiga máxima de que “apartamento pequeno não comporta TV grande” está sendo desconstruída pela capacidade da IA de ajustar a imagem. A logística, contudo, é um obstáculo real. Transportar e instalar um aparelho de 98 polegadas não é trivial. A solução encontrada foi agregar valor com um serviço de “instalação premium”, reconhecendo que a experiência de compra de um produto de luxo se estende até sua fixação na parede. Para viabilizar a aquisição, a empresa aposta em financiamentos e programas de trade-in, o “Plan Canje”, onde o televisor antigo entra como parte do pagamento.

O avanço sobre o segmento premium parece ser um caminho sem volta, mas nem todas as apostas vingam. A própria Samsung reconhece que a tentativa de criar um mercado para projetores portáteis, como o The Freestyle, não teve a tração esperada. O episódio serve como um lembrete de que, mesmo com forte impulso da indústria, é o consumidor quem define quais inovações de fato resolvem um problema e merecem um lugar permanente no centro da sala.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología