O governo de coalizão da Espanha, liderado por Pedro Sánchez, sofreu uma derrota significativa nesta terça-feira, vendo sua proposta de metas de déficit e estabilidade orçamentária para o triênio 2027-2029 ser rejeitada pelo Congresso. A proposta é o primeiro passo formal para a elaboração do Orçamento Geral do Estado, e o revés evidencia a frágil base de apoio do Executivo.

A rejeição foi selada por uma maioria formada por uma aliança inusitada: o conservador Partido Popular (PP), a direita radical do Vox e o partido separatista catalão Junts. Segundo reportagem da Forbes España, a votação em plenário extraordinário força o governo a seguir com a tramitação do orçamento sob um quadro fiscal mais restritivo, complicando as negociações com as comunidades autônomas e sinalizando uma árdua batalha legislativa pela frente.

Uma aliança de conveniência

A frente que se formou para derrubar o plano do governo é um microcosmo da complexa fragmentação política espanhola. Cada um dos partidos apresentou razões distintas para o voto contrário, expondo a dificuldade do governo em construir consensos. Para o PP, a proposta era um "truque", pois o aumento do limite de déficit para as regiões seria, na prática, neutralizado por outras regras de controle de gastos. O Vox, por sua vez, manteve sua linha de oposição frontal, citando o que considera uma má gestão econômica e o empobrecimento da população.

O elemento decisivo, no entanto, foi o "não" do Junts, partido cujo apoio é vital para a governabilidade de Sánchez. O grupo catalão classificou o plano como uma "fraude" para a Catalunha, argumentando que a distribuição dos recursos de déficit era desproporcionalmente baixa para a região. A união de forças entre a direita nacionalista e o separatismo catalão, normalmente em polos opostos, demonstra que o pragmatismo tático para desgastar o governo central superou as profundas divergências ideológicas.

O dilema fiscal e o pragmatismo basco

Com a rejeição, o governo é obrigado por lei a adotar as metas de déficit enviadas a Bruxelas anteriormente, que são mais rígidas, especialmente para as comunidades autônomas. Ironicamente, a manobra da oposição prejudica governos regionais administrados pelo próprio PP, que terão menos margem fiscal. O ministro da Fazenda, Arcadi España, havia alertado para este cenário, apelando para a "responsabilidade" dos parlamentares, mas seu apelo não surtiu efeito.

Em contraste, o Partido Nacionalista Basco (PNV), outro ator regional crucial, votou a favor da proposta. A justificativa foi puramente pragmática: a senda proposta pelo governo era a "opção menos prejudicial", pois a alternativa seria ainda pior para a autonomia fiscal do País Basco. Ainda assim, o PNV questionou duramente a estratégia do governo: "Como pretendem aprovar os Orçamentos se hoje não conseguem os apoios para aprovar a senda, que é o primeiro passo?". A crítica expõe a falha do governo não apenas em negociar, mas em antecipar o cenário político.

A derrota na votação das metas fiscais é mais do que um tropeço técnico. Ela funciona como um termômetro da legislatura, indicando que a aprovação do orçamento completo será uma tarefa hercúlea. O episódio revela um governo refém de apoios instáveis e uma oposição disposta a formar alianças pontuais para bloquear a agenda do Executivo, transformando a gestão fiscal em um campo de batalha político permanente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España