A vocação da filha na obra de Sanna Wani

A escritora Sanna Wani, autora de "Lantern", revela em entrevista como a experiência de ser filha se tornou um eixo central em sua produção literária. Longe de ser um mero tema, a filiação é apresentada como uma prática de atenção, um labor de amor e, em última instância, uma vocação que molda a compreensão de si e a construção de sua identidade poética. Wani descreve sua escrita como intrinsecamente ligada à sua vida pessoal, onde ambas frequentemente se entrelaçam, influenciando-se mutuamente.

Em "Lantern", a autora mergulha em uma narrativa que explora a complexidade de uma relação familiar fragilizada, marcada pela ausência paterna, o luto materno e um certo exílio comunitário. A figura da filha, em contraste com o rótulo de "mulher", não carrega o mesmo peso de restrição para Wani. Ser filha, para ela, implica um senso de dever, um compromisso que transcende a mera obrigação.

Desvendando a lealdade e a promessa

Wani contesta a noção de "wafadari" — um termo urdu que seu pai usa para descrever a lealdade das filhas, traduzido como "filhas são leais". Ela questiona as bases dessa promessa, as leis implícitas e as expectativas familiares que a cercam. A escritora busca entender os limites dessa lealdade e as expectativas de uma vida considerada "boa" pelos pais, em contraste com suas próprias aspirações.

Este conflito entre a identidade pessoal e a origem familiar é uma narrativa recorrente na literatura. No entanto, Wani busca sua própria versão, reconhecendo tanto os sucessos quanto as falhas de sua expressão. Ela se apoia no conceito de "direito à opacidade" de Édouard Glissant, que defende a prerrogativa de indivíduos e culturas de não serem totalmente transparentes ou explicados por moldes externos, especialmente os ocidentais.

A poesia como refúgio e ferramenta de autoconhecimento

A busca por uma linguagem autônoma começou na adolescência, quando Wani descobriu que sua mãe lia seu diário. Essa invasão de privacidade, embora dolorosa, a impulsionou a criar um espaço linguístico próprio, um refúgio onde parte de sua experiência pudesse ser preservada, compartilhada apenas quando o sentimento fosse plenamente vivido.

Inspirada por Audre Lorde, Wani vê a poesia não como um luxo, mas como um alicerce para a liberdade. A poesia, segundo Lorde, oferece a linguagem para expressar a consciência revolucionária e impulsionar ações. Essa "qualidade de luz" que a poesia lança sobre a vida é o que fundamenta a poética da filiação que Wani pratica e a forma como se entende como filha.

Implicações e o direito à opacidade

A obra de Sanna Wani, "Lantern", e suas reflexões sobre a filiação oferecem um contraponto às narrativas ocidentais sobre amor, liberdade e dever. Ao reivindicar o direito à opacidade, Wani não busca justificar suas ações ou as de sua família, mas sim afirmar a complexidade e a singularidade de sua experiência. A literatura se torna, assim, um espaço para explorar as tensões inerentes aos laços familiares e para forjar uma identidade autêntica, livre de moldes preestabelecidos.

A escritora demonstra que a exploração da própria história, com suas ambiguidades e contradições, é um ato de coragem. Ao compartilhar sua jornada, ela convida o leitor a refletir sobre suas próprias relações familiares e a busca por uma voz literária que seja, ao mesmo tempo, pessoal e universal, sem a necessidade de total transparência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub