A euforia com os preços do açúcar, que atingiram a maior cotação desde maio de 2025, impulsionou as ações da São Martinho (SMTO3) a uma alta de 42% em agosto. O mercado celebrou, mas o Bank of America (BofA) optou pela sobriedade, reiterando sua recomendação de venda (underperform) para o papel, com um preço-alvo de R$ 15.
A decisão, detalhada em relatório do banco, expõe um clássico descompasso entre o otimismo macro do mercado de commodities e a microeconomia de uma companhia. Para os analistas do BofA, a valorização da São Martinho foi exagerada, superando não apenas a alta do açúcar (+20%) e do etanol (+13%), mas também a melhora efetiva nos fundamentos da empresa.
O risco da euforia no valuation
A tese central do Bank of America é que o mercado se antecipou. O déficit global de açúcar esperado para a safra 2026/27, impulsionado por preocupações com a produção na Índia e o ritmo lento da moagem no Brasil, já estaria amplamente refletido nas cotações. O problema é que o preço da ação da São Martinho correu na frente.
Com o rali, o papel passou a ser negociado a 4,6 vezes o valor da firma sobre o Ebitda (EV/Ebitda) projetado para o ano fiscal de 2027. O múltiplo está significativamente acima da faixa histórica da companhia, que varia entre 3,5 e 4 vezes. A leitura do banco é direta: a ação ficou cara, e os fundamentos atuais não justificam o prêmio.
Fundamentos que não acompanham
Dois fatores específicos da São Martinho pesam na análise. Primeiro, a estratégia de hedge. A companhia já travou o preço de cerca de um terço de seu volume de açúcar para 2027 a 15,8 centavos de dólar por libra-peso. O valor está abaixo das cotações atuais, que superam os 17 centavos, limitando a capacidade da empresa de capturar a totalidade da alta.
Segundo, a rentabilidade do etanol segue pressionada. Embora os preços tenham se recuperado, o açúcar ainda oferece um prêmio de 63% sobre o biocombustível. Mais crítico, o preço médio projetado pelo BofA para o etanol (R$ 2,60/litro) ainda ficaria abaixo do custo de produção estimado, de R$ 2,70 por litro. O resultado, segundo o banco, seria um fluxo de caixa negativo, mesmo em um cenário de preços melhores que os atuais.
A chamada do BofA serve como um lembrete de que, mesmo em um ciclo de alta de commodities, a análise fundamentalista de cada empresa é crucial. O mercado pode celebrar o cenário macro, mas a geração de valor depende de como a gestão navega os custos, o hedge e a sua própria estrutura operacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





