A gigante alemã de software SAP apresentou durante o evento SAP Sapphire, em Orlando, uma nova estratégia focada na implementação de agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas empresariais automaticamente. O movimento marca uma mudança de paradigma na oferta da companhia, que busca transformar os tradicionais sistemas de gestão (ERP) em plataformas de execução ativa. Segundo a empresa, a integração de ferramentas de dados e o copiloto conversacional Joule permitirá que o software não apenas registre informações, mas tome decisões operacionais em tempo real.

O anúncio ocorre em um momento em que a SAP consolida sua posição como a empresa tecnológica mais valiosa da Europa, com uma capitalização de mercado superior a 300 bilhões de euros. A estratégia da companhia diferencia-se de outros players do setor ao focar na camada de dados corporativos, buscando garantir que os agentes de IA compreendam a lógica de negócio específica de cada cliente, em vez de depender apenas de modelos de linguagem generalistas.

O experimento argentino na gestão aeroportuária

Como parte da demonstração de sua visão de "empresa autônoma", a SAP destacou o projeto da Aeropuertos Argentina, que desenvolveu o agente SNOW para otimizar operações em pistas durante o inverno. O sistema integra dados meteorológicos, sensores de pista e processos de manutenção para automatizar alertas e coordenar equipes em tempo real. A implementação visa reduzir intervenções manuais em cenários críticos de gelo e neve, onde a agilidade na resposta é determinante para a segurança e a continuidade das operações.

De acordo com o CIO da companhia, Gustavo Sábato, o uso do agente permite uma mudança de um modelo reativo para um proativo. A empresa estima uma redução de 16% nos custos operacionais e uma diminuição significativa nas emissões de CO2, além de automatizar processos administrativos que antes dependiam da fragmentação de dados e da experiência individual dos operadores. O caso serve como uma vitrine para a tese de que a IA pode, de fato, atuar no coração operacional de grandes organizações.

Dados como alicerce da autonomia

O principal desafio para a adoção desse modelo, segundo executivos da SAP, reside na qualidade e na organização da infraestrutura de dados das empresas. Claudia Boeri, presidente da SAP para a região Multi-Country da América Latina e Caribe, reforçou que a IA só gera resultados com sentido de negócio se os dados estiverem integrados e correlacionados. Muitas organizações ainda operam com tecnologias legadas que impedem o avanço para processos realmente autônomos.

A companhia argumenta que falhas em implementações de IA empresarial ocorrem, em grande parte, pelo isolamento dos dados. A aposta da SAP é que, ao fornecer uma camada de inteligência sobre os dados transacionais, a precisão das decisões automatizadas aumenta drasticamente, diferenciando-se de chatbots genéricos. O CEO global Christian Klein enfatizou que, em processos críticos, a precisão é inegociável, reiterando que 80% de acurácia não é suficiente para a operação de uma grande empresa.

Implicações para o mercado e stakeholders

A transição para a empresa autônoma levanta questões sobre o papel humano nas organizações. A SAP enfatiza que a autonomia não implica substituição, mas sim a delegação de tarefas repetitivas para máquinas, mantendo a supervisão e as decisões críticas sob controle humano. Para reguladores e gestores, o desafio será equilibrar a eficiência proporcionada pelos agentes com a governança necessária em processos que envolvem segurança e conformidade legal.

Para o ecossistema brasileiro e latino-americano, a necessidade de modernização tecnológica torna-se evidente. A disparidade entre empresas que já avançam na integração de sistemas e aquelas que ainda tentam superar o legado tecnológico ditará o ritmo da adoção dessas ferramentas. A curiosidade demonstrada pelos clientes no evento sugere um apetite por transformação, embora a viabilidade de longo prazo dependa da capacidade das empresas de estruturarem seus dados adequadamente.

Perspectivas e incertezas

O futuro da empresa autônoma permanece em construção, sem prazos rígidos ou metas imediatas estabelecidas pela SAP. A transição será gradual, dependendo da migração para sistemas em nuvem e da maturação das plataformas unificadas de dados. O que se observa é uma mudança no comportamento do mercado, que começa a tratar a IA não mais como uma promessa abstrata, mas como uma ferramenta operacional de aplicação prática.

Os próximos passos da indústria devem ser monitorados, especialmente no que diz respeito à integração desses agentes em setores altamente regulados. A capacidade da SAP de escalar sua rede de mais de 200 agentes especializados será um indicador chave para entender se a promessa de autonomia empresarial conseguirá superar a barreira da complexidade operacional que ainda trava muitas corporações.

Com reportagem de La Nación

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