Marian Anderson, uma das vozes mais importantes do século XX e um símbolo da luta por direitos civis nos Estados Unidos, manteve ao longo de toda a sua vida uma devoção particular pela música de Franz Schubert. A afinidade entre a contralto negra americana, forjada nos spirituals de sua igreja na Filadélfia, e o compositor austríaco do século XIX, mestre das canções de salão vienenses, pode parecer, à primeira vista, um enigma. Um novo olhar sobre essa relação, no entanto, revela uma conexão muito mais profunda do que a simples admiração.

Em um trecho de seu livro “Voice of a Century”, publicado pelo portal literário Lit Hub, o crítico Anthony Tommasini argumenta que a chave para entender essa paixão não está na busca por um suposto prestígio da música clássica europeia. A leitura aqui é que Anderson encontrou na obra de Schubert uma ressonância direta com a linguagem musical de sua própria formação: a ambiguidade. Tanto nos lieder alemães quanto nos spirituals negros, a música operava em múltiplos níveis, comunicando emoções complexas e subtextos que a palavra falada não alcançava.

A linguagem secreta da música

A obra de Schubert, especialmente seus ciclos de canções, é um estudo em dualidade. Melodias aparentemente alegres e vibrantes, como em “Das Wandern” do ciclo Die schöne Müllerin, escondem uma corrente subterrânea de ansiedade e incerteza. Essa tensão, que reflete a própria vida conturbada do compositor, que morreu jovem e lutou por reconhecimento, cria uma riqueza emocional que transcende a simples beleza melódica. É uma música que sorri com os lábios, mas carrega uma tristeza no olhar. O ouvinte sente que há sempre algo não dito, uma profundidade que se revela apenas na escuta atenta.

Essa mesma característica é a espinha dorsal dos Negro spirituals. Canções como “Deep River” expressam um anseio pela “terra prometida” que é, simultaneamente, uma esperança de salvação celestial e um desejo codificado pela liberdade terrena, longe da opressão da escravidão. A ambiguidade não era um recurso estilístico, mas uma ferramenta de sobrevivência e expressão. Ao cantar “Sometimes I Feel Like a Motherless Child”, Anderson não expressava apenas uma dor literal, mas uma vulnerabilidade existencial e metafórica. A leitura de Tommasini sugere que a jovem Marian Anderson, ao ouvir os lieder de Schubert pela primeira vez, reconheceu essa mesma técnica de dizer o indizível.

Para além da hierarquia cultural

O debate sobre a relação de artistas negros com o cânone clássico europeu frequentemente cai na armadilha de uma suposta hierarquia. A própria Anderson, em entrevistas, chegou a usar termos como música de “tipo mais elevado”, o que poderia sugerir uma adesão a essa visão. No entanto, sua prática artística contava uma história diferente. Em seus recitais, os spirituals não eram um apêndice folclórico, mas eram apresentados com a mesma seriedade e profundidade interpretativa que as canções de Schubert ou Brahms, colocando-os em pé de igualdade.

O movimento sugere que, para Anderson, a conexão era de ofício, não de status. Sua interpretação de “Wohin?”, também de Die schöne Müllerin, é exemplar. Como a fonte detalha, ela utiliza os registros mais leves de sua voz para capturar a vulnerabilidade do jovem protagonista, mas convoca seus graves profundos e ressonantes nos momentos em que a música mergulha em mistério e dúvida. Não se tratava de emular um padrão europeu, mas de usar seu extraordinário instrumento vocal para desvendar as complexas camadas emocionais que ela mesma reconhecia tão bem de sua própria tradição musical.

A conexão entre Anderson e Schubert, portanto, se revela menos como um ato de assimilação e mais como um ato de profunda tradução cultural e artística. Ela não buscava em Viena o que lhe faltava na Filadélfia. Pelo contrário, ela ouviu em uma língua estrangeira a gramática emocional que já lhe era nativa. Foi um reconhecimento entre artistas separados pelo tempo, pela geografia e pela raça, mas unidos pela capacidade da música de expressar as ambiguidades mais profundas da condição humana.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub