O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou uma nova ofensiva contra o Cartel Jalisco Nova Geração, focando em uma das fontes de receita mais lucrativas e menos convencionais da organização criminosa: o mercado de combustíveis. Sob a gestão do secretário Scott Bessent, o governo americano impôs sanções a dois indivíduos e nove empresas mexicanas, acusadas de integrar uma rede de roubo e distribuição ilegal de diesel e gasolina que contorna impostos e gera dezenas de milhões de dólares anualmente.
Além das sanções diretas, a rede de combate a crimes financeiros (FinCEN) emitiu um alerta a instituições bancárias para identificar movimentações suspeitas relacionadas ao contrabando de combustível dos EUA para o México. A estratégia reflete uma mudança na percepção americana sobre a diversificação econômica das organizações criminosas mexicanas, que buscam acumular capital para além do tráfico tradicional de drogas.
A diversificação dos fluxos criminosos
A ação do Tesouro sublinha a transição dos cartéis para setores da economia formal. O Cartel Jalisco Nova Geração, hoje presente em 21 dos 32 estados mexicanos, utiliza o roubo de combustível — conhecido localmente como 'huachicoleo' — como um pilar de sustentação financeira. Ao perfurar dutos e desviar a produção para postos de gasolina próprios ou forçados a comprar o produto, o grupo cria um ecossistema que mistura extorsão, evasão fiscal e lavagem de dinheiro.
Historicamente, o controle de territórios pelos cartéis era focado estritamente na logística de entorpecentes. Contudo, a necessidade de financiar estruturas operacionais cada vez maiores levou essas organizações a se infiltrarem em infraestruturas energéticas. A ocupação de postos de gasolina permite que o cartel não apenas lucre com a revenda, mas também utilize o fluxo de caixa desses estabelecimentos para legitimar receitas ilícitas, complicando o rastreamento pelas autoridades de regulação financeira.
Mecanismos de controle e evasão
O mecanismo operacional envolve a integração de empresas de transporte e serviços financeiros que facilitam a circulação do combustível roubado. Ao sancionar essas entidades, o governo americano tenta interromper os elos que conectam o crime organizado ao sistema financeiro global. A estratégia de Bessent é clara: atacar a infraestrutura logística que permite ao cartel operar como uma empresa de energia paralela.
O desafio reside na capilaridade do esquema. Com postos espalhados por 21 estados, o cartel consegue mascarar a origem do combustível desviado, misturando-o com produtos adquiridos legalmente. A pressão sobre as instituições financeiras para identificar 'red flags' é uma tentativa de fechar o cerco sobre os pagamentos que sustentam essa rede, forçando as empresas de fachada a se exporem ou encerrarem as operações.
Tensões diplomáticas e segurança
A designação do Cartel Jalisco como organização terrorista estrangeira, realizada no ano passado, eleva o tom do confronto entre Washington e as facções criminosas. Essa classificação não é apenas simbólica; ela amplia as ferramentas jurídicas disponíveis para o Tesouro e outras agências americanas, permitindo um monitoramento mais agressivo sobre ativos financeiros e transações internacionais que possam beneficiar o grupo.
Para o México, a situação apresenta um dilema de soberania e segurança pública. A atuação de cartéis em infraestruturas vitais como oleodutos e postos de serviço coloca em risco não apenas a economia nacional, mas também a estabilidade da região fronteiriça. A cooperação entre as autoridades mexicanas e o Tesouro americano será o principal termômetro para medir a eficácia dessa nova política de sanções.
O futuro das sanções no setor energético
A eficácia dessa abordagem dependerá da capacidade dos órgãos de inteligência em mapear a constante mutação das empresas de fachada. O Cartel Jalisco tem demonstrado resiliência, adaptando-se rapidamente às sanções através da criação de novas entidades jurídicas e do uso de intermediários.
O monitoramento contínuo das rotas de distribuição de combustível será essencial para impedir que o lucro do crime organizado continue a financiar o tráfico de drogas que impacta diretamente a segurança pública dos Estados Unidos. A questão agora é saber se as sanções serão suficientes para desmantelar a estrutura ou apenas forçarão o cartel a buscar novos setores para explorar.
A movimentação do Tesouro marca um capítulo importante na tentativa de asfixiar financeiramente as organizações que hoje dominam vastas áreas do território mexicano. O sucesso dessa estratégia poderá ditar o tom da política de segurança transfronteiriça nos próximos anos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





