A jornada de contratação de seguros, historicamente marcada por formulários exaustivos e burocracia, atravessa um ponto de inflexão tecnológica. Durante o evento Insurtech Brasil 2026, executivos do setor destacaram que a combinação de inteligência artificial e o acesso a bases de dados comportamentais e financeiros permite, hoje, que a cotação de apólices seja realizada a partir de um único identificador: o CPF do consumidor.
Essa simplificação não é apenas uma conveniência estética, mas um reflexo da maturidade analítica das seguradoras. Segundo reportagem do InfoMoney, a transição para modelos baseados em dados permite que empresas como a Zurich Seguros substituam questionários de até 25 perguntas por uma análise automatizada que cruza informações internas e externas para precificar o risco com precisão elevada.
A nova arquitetura de dados
O valor estratégico das seguradoras está se deslocando da coleta manual de informações para a capacidade de processamento inteligente. Como destacou João Merlin, da Zurich Seguros, o dado bruto assemelha-se ao petróleo: ele exige refinamento para gerar valor real. A capacidade de transformar sinais comportamentais em métricas de risco é o que permite a personalização das ofertas.
Para o mercado, esse movimento representa uma mudança na lógica de subscrição. Se antes a seguradora dependia da declaração do cliente — muitas vezes imprecisa ou incompleta —, agora ela utiliza o histórico financeiro e comportamental para validar o perfil. Essa mudança de paradigma aproxima o mercado de seguros das práticas já consolidadas no setor bancário, onde a análise de crédito é feita de forma quase invisível ao usuário final.
O mecanismo da precificação dinâmica
A eficácia dessa estratégia depende da profundidade dos dados disponíveis. Ricardo Thomaziello, da Serasa Experian, aponta que a qualidade e a granularidade das informações disponíveis hoje permitem uma distinção de riscos muito mais refinada do que os modelos tradicionais baseados apenas em idade ou localização geográfica. A diferenciação entre os perfis de risco permite que as seguradoras não apenas reduzam a inadimplência, mas também criem produtos mais aderentes à realidade de cada segurado.
O uso de IA atua como o motor desse processo, automatizando a leitura de padrões que seriam imperceptíveis para analistas humanos. A tecnologia não se limita à cotação, estendendo-se à gestão do relacionamento com o cliente e à otimização da comunicação, como mencionado por Luís Henrique Fontes, da MAG Seguros. O objetivo é criar uma experiência fluida, onde a tecnologia opera nos bastidores para garantir que o produto seja adequado e o preço, justo.
Tensões e desafios regulatórios
Embora a eficiência seja o principal benefício, a dependência crescente de algoritmos levanta questões sobre a transparência no processo de precificação. A transição para modelos de "caixa preta" exige que as seguradoras mantenham critérios rigorosos de governança, garantindo que a personalização não se converta em exclusão indevida ou discriminação algorítmica. O desafio dos reguladores será equilibrar o incentivo à inovação com a proteção do consumidor.
Para as seguradoras, a competição passará a ser decidida pela qualidade dos dados e pela capacidade de orquestrar essas informações. Empresas que falharem em integrar suas bases ou em interpretar corretamente os sinais comportamentais correm o risco de perder competitividade frente a players nativos digitais ou seguradoras tradicionais que aceleraram sua transformação digital.
O horizonte da personalização
O futuro aponta para produtos cada vez mais modulares e dinâmicos, onde o seguro se ajusta ao comportamento do cliente em tempo real. A grande questão que permanece é como o mercado lidará com a crescente expectativa de privacidade dos consumidores frente a essa coleta intensiva de dados comportamentais.
Acompanhar a evolução dessas plataformas de análise será essencial para entender o próximo ciclo de crescimento do setor. O mercado de seguros caminha para um modelo onde o atrito na contratação será reduzido ao mínimo possível, tornando a proteção financeira um serviço tão fluido quanto qualquer outra transação digital contemporânea.
Com reportagem de [Brazil Valley](/categoria/Inteligência Artificial)
Source · InfoMoney





