A Shein decidiu adiar sua tão aguardada estreia na bolsa de valores de Hong Kong. Previsto inicialmente para o final de agosto, o processo de oferta pública inicial (IPO) foi postergado para setembro, após um atraso na captação de ordens de investidores, segundo reportagem do jornal South China Morning Post.
O adiamento, no entanto, é apenas um sintoma de um desafio maior: a drástica reavaliação do valor da companhia. Fontes ouvidas pela agência Reuters indicam que a Shein busca um valuation de aproximadamente US$ 25 bilhões. A cifra é um abismo em comparação com os quase US$ 100 bilhões que a empresa atingiu em uma rodada de captação privada há quatro anos, e representa um recuo mesmo frente à faixa de US$ 30 a US$ 40 bilhões especulada no início deste mês.
O preço da velocidade
A queda vertiginosa no valuation da Shein não é apenas um reflexo das condições macroeconômicas mais adversas para IPOs. Ela representa uma reavaliação fundamental, por parte do mercado de capitais, sobre a sustentabilidade do modelo de ultra-fast fashion. O apetite dos investidores parece ter diminuído para um negócio que, apesar do crescimento explosivo, opera sob intenso escrutínio em frentes que vão de práticas trabalhistas a impacto ambiental.
A dificuldade em fechar o livro de ofertas é um sinal claro. A necessidade de trazer investidores-âncora, com a possibilidade de os próprios bancos coordenadores da oferta terem que alocar capital próprio, sugere uma demanda externa mais fraca que o esperado. O mercado está colocando na balança o crescimento acelerado contra os riscos regulatórios e de reputação que se acumulam no balanço da empresa.
Hong Kong como termômetro
A escolha de Hong Kong para o IPO já era, em si, uma manobra estratégica, evitando o ambiente regulatório e geopolítico mais hostil de Nova York. Contudo, a recepção morna mesmo em um mercado asiático demonstra que as preocupações com o modelo da Shein são globais. A avaliação atual coloca a empresa em um patamar muito mais próximo de varejistas tradicionais do que do status de gigante de tecnologia que um dia almejou.
O fato de que acionistas atuais devem assumir a maior parte das participações como âncoras pode ser lido de duas formas: como um voto de confiança de quem já está dentro do negócio ou, mais pragmaticamente, como uma necessidade para garantir que a operação não fracasse. Para o mercado, o recado é de cautela. A empresa que definiu uma era de consumo de moda descartável agora precisa provar que seu modelo financeiro é, ele próprio, durável.
O adiamento é curto, mas a distância entre a expectativa de valor e a realidade do mercado é vasta. A estreia em setembro será um teste crucial não apenas para a Shein, mas para toda a categoria que ela ajudou a criar. A questão que fica é se os investidores estão dispostos a comprar uma versão mais enxuta e auditada do ultra-fast fashion ou se a era de crescimento a qualquer custo chegou, de fato, ao fim.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





