O ex-ministro das Relações Exteriores de Israel, Shlomo Ben Ami, apresentou uma visão contundente sobre a evolução dos conflitos bélicos, argumentando que o confronto estratégico com o Irã é um sintoma de um novo paradigma: "Os poderes mais fortes já não ganham as guerras". A declaração, feita em Palma, Espanha, durante uma conferência sobre a situação internacional, sugere que a superioridade militar convencional está se tornando obsoleta diante de táticas de guerra assimétrica.
Um Novo Paradigma Bélico
Ben Ami, que também é diplomata e escritor, destacou as "consequências não intencionadas" que permeiam todos os conflitos modernos. Segundo ele, a maioria das guerras começa com objetivos claros, mas frequentemente degenera em "caos tremendo", sem que haja uma compreensão clara do que realmente aconteceu. O caso do Irã, na visão do ex-ministro, corrobora essa tese. Ele aponta que "dois gigantes militares, Estados Unidos e Israel, foram praticamente derrotados por um país supostamente menor". Essa derrota, ele esclarece, não se deu pela perda de batalhas individuais – que frequentemente foram vencidas –, mas sim pela perda do confronto estratégico como um todo. Os iranianos, segundo Ben Ami, ensinaram uma lição sobre a guerra assimétrica contemporânea, demonstrando como países ou organizações menores podem neutralizar a força de potências maiores como EUA, Israel ou Rússia, como visto também nos conflitos envolvendo o Hamas e a Ucrânia.
A Ascensão da Guerra Assimétrica
A análise de Ben Ami se aprofunda na natureza dos conflitos atuais, onde a assimetria de poder é uma característica marcante. Ele observa que, historicamente, guerras de grande escala frequentemente resultavam na criação de "um novo ordenamento estável". A Primeira Guerra Mundial, por exemplo, levou à criação da Liga das Nações, e a Segunda Guerra Mundial estabeleceu a ordem liberal e econômica que moldou o pós-guerra. No entanto, Ben Ami critica a incapacidade dos Estados Unidos em estabelecer uma nova ordem no Oriente Médio após décadas de conflitos regionais. O cenário atual, em sua opinião, é um retorno ao status quo anterior, caracterizado pela "crise do liberalismo e da cadeia de suprimentos, o cisma entre Europa e EUA ou a fricção entre grandes potências". O Irã, apesar de ter sofrido significativamente com sanções e operações militares, permanece um ator regional de peso, com considerável influência sobre o sistema do Oriente Médio, o que aponta para a resiliência e a eficácia de sua estratégia assimétrica.
Implicações para a Geopolítica Global
A visão de Ben Ami levanta questões cruciais sobre o futuro da segurança internacional e a eficácia da doutrina militar tradicional. Se as potências mais fortes não estão mais garantindo vitórias decisivas, o que isso significa para a estabilidade global? A ascensão de atores não estatais e de países com capacidades militares limitadas, mas com estratégias de guerra assimétrica bem definidas, sugere uma reconfiguração do poder no cenário mundial. A incapacidade de impor uma nova ordem pós-conflito, como observado no confronto envolvendo o Irã, pode indicar um enfraquecimento das grandes potências ou uma complexidade crescente nas relações internacionais que desafia modelos de resolução de conflitos anteriormente bem-sucedidos. A persistência do Irã como poder regional reforça a ideia de que a vitória militar não se traduz mais automaticamente em ganhos geopolíticos duradouros.
Perguntas em Aberto
O argumento de Ben Ami deixa em aberto diversas interrogações. Se a força militar bruta não é mais o fator determinante, quais são as novas métricas de poder e influência em conflitos internacionais? Como a comunidade internacional deve se adaptar a essa nova realidade, onde a vitória em batalhas não se traduz em paz ou ordem duradouras? A análise do ex-ministro israelense sugere que a compreensão da guerra assimétrica e de suas consequências não intencionais é fundamental para navegar no complexo cenário geopolítico atual. A forma como as nações e alianças responderão a essa mudança de paradigma definirá a estabilidade e a ordem global nas próximas décadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España




