A SLC Agrícola (SLCE3) desenha um novo capítulo em sua trajetória operacional ao mirar uma meta de rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE) em torno de 20%. Segundo o CEO Aurélio Pavinato, em entrevista ao programa Money Minds, a empresa busca alcançar um patamar de eficiência financeira historicamente associado aos grandes bancos brasileiros, consolidando uma mudança estrutural iniciada nos últimos anos.

Essa guinada estratégica reflete uma transição no modelo de negócios da companhia. Enquanto no passado a geração de valor da SLC estava fortemente atrelada à valorização imobiliária de suas terras próprias, a operação atual prioriza o uso intensivo de áreas arrendadas, que hoje compõem cerca de dois terços da área total plantada. A leitura aqui é que a empresa está se descolando da dependência da apreciação fundiária para focar puramente na eficiência da produção agropecuária.

O modelo de arrendamento como alavanca

A migração para o arrendamento não é apenas uma escolha logística, mas uma decisão de alocação de capital. Ao reduzir a imobilização de recursos em ativos fixos, a SLC consegue escalar sua operação com maior agilidade, otimizando o retorno sobre o capital investido. Nos últimos cinco anos, a companhia registrou um ROE de 22%, um desempenho impulsionado tanto pela eficiência das safras quanto pela valorização das terras que ainda compõem o portfólio.

Para o investidor, o movimento sinaliza uma empresa que busca ser avaliada mais pela sua capacidade de gerar caixa operacional do que pela sua reserva de valor em hectares. O desafio, contudo, reside em manter essa rentabilidade em um cenário de volatilidade climática e oscilações nos preços das commodities, fatores que impactam diretamente a margem de lucro por hectare arrendado.

A disciplina financeira e a política de dividendos

A busca por um ROE elevado vem acompanhada de uma gestão de capital rigorosa. Pavinato confirmou que a SLC não deve realizar pagamentos de dividendos em 2026, uma decisão que segue o aumento de capital com bonificação realizado no final do ano passado para antecipar impactos de novas regras tributárias. A estratégia reafirma a prioridade da companhia em reinvestir o capital na expansão operacional em vez de drenar caixa para proventos de curto prazo.

Essa postura de austeridade financeira é vista pelo mercado como um sinal de confiança na própria capacidade de reinvestimento. Ao priorizar o crescimento da base operacional, a SLC espera que a rentabilidade se traduza, no médio e longo prazo, em uma valorização consistente do seu valor de mercado (market cap), independentemente das flutuações cíclicas do setor.

O agro frente ao cenário macroeconômico

Sobre o ambiente externo, a visão da liderança é de que o agronegócio brasileiro atingiu uma escala de relevância que transcende governos. Pavinato pontuou que, embora a política monetária — especialmente juros e câmbio — seja a variável que mais preocupa, o setor dispõe de um marco legal resiliente. A empresa descarta que incertezas eleitorais reduzam o apetite por novos investimentos e expansão de área.

Um ponto crítico levantado pelo executivo é a disparidade no suporte estatal. Com subsídios ao agro brasileiro girando em torno de 3%, frente aos 15% observados nos Estados Unidos, o setor no Brasil opera de forma mais independente e exposto ao risco de mercado. A resiliência, segundo a companhia, vem da própria competitividade do produtor brasileiro e da ausência de mudanças estruturais bruscas no ambiente regulatório, mesmo em ciclos políticos distintos.

Perspectivas e incertezas operacionais

O futuro da SLC permanece atrelado à sua capacidade de navegar o custo do capital e a disponibilidade de áreas para arrendamento. A empresa aposta na continuidade de um ambiente de negócios que valorize a eficiência produtiva, mantendo o foco em ganhos marginais que, somados, sustentam a meta de rentabilidade de 20%.

O que resta observar é como a companhia equilibrará a pressão por margens com os riscos inerentes à expansão geográfica. A capacidade de manter a produtividade em novas áreas, sem comprometer a estrutura de capital, será o principal indicador de sucesso para os próximos anos. A estratégia de longo prazo parece clara, mas a execução dependerá da resiliência do modelo frente a um ambiente macroeconômico global ainda incerto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times