Havia algo no ar em 2017. O festival de Sundance daquele ano revelou um trio de filmes que definiriam uma geração de talentos e narrativas queer: Beach Rats, God's Own Country e, claro, Me Chame Pelo Seu Nome. Pouco depois, Moonlight levaria o Oscar de Melhor Filme. Eram obras nascidas no otimismo que se seguiu à legalização do casamento homoafetivo nos EUA, mas lançadas sob a sombra da recém-iniciada presidência de Donald Trump. A tensão entre o avanço de direitos e a reação conservadora parecia catalisar a criatividade.

Quase uma década depois, o cenário se repete com uma nova intensidade. Com um mandato de Trump no retrovisor e outro em andamento, 2026 emerge como um ano surpreendentemente fértil para o cinema queer. Segundo uma análise da revista i-D, uma onda de produções independentes, premiadas em festivais como Cannes e Berlim, não apenas retoma o fôlego de 2017, mas o faz com uma diversidade e uma ousadia ainda maiores. A leitura é que, mais uma vez, o cinema de autor responde ao ambiente político com narrativas que se recusam a fazer concessões.

O ciclo de uma década

A tese de um ciclo de aproximadamente dez anos encontra respaldo no passado recente. Antes da safra de 2017, o último ano em que a Academia indicou dois protagonistas queer na categoria de Melhor Filme foi 2006, com O Segredo de Brokeback Mountain e Capote. A recorrência sugere um padrão: momentos de intensa disputa política e social parecem criar o terreno para que cineastas explorem as nuances da identidade e da existência queer com mais urgência e profundidade. Não se trata de uma reação direta e panfletária, mas de um subtexto que permeia as obras.

Enquanto os filmes de 2017, como Me Chame Pelo Seu Nome, capturavam uma espécie de idílio romântico que parecia prestes a ser perdido, a safra de 2026 parece mais ciente das fraturas. As novas produções chegam num momento em que direitos conquistados são novamente questionados, e a representatividade em grandes estúdios muitas vezes se limita a gestos tímidos. Em contraste, o circuito independente apresenta histórias complexas, por vezes sombrias e multifacetadas, que refletem um mundo menos idealizado.

Um mosaico de narrativas

O que distingue a onda de 2026 é sua amplitude geográfica e temática. As histórias não se concentram mais apenas nos centros urbanos dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental. Vão da Nigéria, com Clarissa, uma adaptação de Mrs Dalloway dos irmãos Arie e Chuko Esiri, à ilha japonesa de Okinawa em The Color of the Sun, que explora a relação entre um jovem local e um americano no contexto de bases militares. A Espanha entrega La Bola Negra, um épico gay que atravessa três décadas e rendeu o prêmio de direção em Cannes para a dupla Javier Calvo e Javier Ambrossi.

Os temas também se expandem para além do romance de formação. O terror Leviticus aborda a violência da terapia de conversão sob uma ótica paranormal. O documentário Barbara Forever resgata a vida da cineasta experimental lésbica Barbara Hammer. E Coward, do belga Lukas Dhont, encontra ternura e desejo nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Essa variedade sinaliza um amadurecimento: a experiência queer não é mais um monolito, mas um prisma através do qual se pode contar qualquer tipo de história, em qualquer lugar.

O conjunto de obras de 2026 parece menos interessado em pedir aceitação e mais focado em afirmar sua própria existência, com todas as suas complexidades, dores e prazeres. Se a safra de 2017 foi marcada pela beleza agridoce de um verão que chegava ao fim, a de agora parece mais preparada para o inverno. A questão que fica não é se este é o melhor ano para o cinema queer, mas o que a força e a diversidade desses filmes dizem sobre a resiliência da criação artística em tempos de incerteza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D