A estreia de “Her Private Hell” em Cannes foi recebida com a intensidade que se espera de um filme de Nicolas Winding Refn: uma mistura de vaias e aplausos fervorosos. Para a protagonista, Sophie Thatcher, a recepção dividida foi um selo de aprovação. “Prefiro fazer algo polarizador a algo com que todos concordem”, afirmou a atriz em uma longa entrevista à revista i-D, que acompanhou sua passagem pelo festival. O momento captura a essência de sua atual transição de carreira: um movimento deliberado para longe do sucesso comercial seguro e em direção a um território artístico mais arriscado e autoral.
Até aqui, a trajetória de Thatcher foi construída sobre o sucesso estrondoso de “Yellowjackets”, o drama de sobrevivência da Showtime, e uma série de filmes de horror bem-sucedidos que lhe renderam o título, ainda que relutante, de “scream queen”. A leitura editorial, no entanto, é que esses projetos não foram o destino final, mas o veículo. Eles forneceram a Thatcher o capital de indústria — visibilidade, bilheteria e aclamação — necessário para, agora, poder escolher um caminho menos convencional e mais alinhado com suas aspirações de trabalhar com “artistas de visão singular”.
Do grito à liberdade criativa
O rótulo de “rainha do grito” é uma faca de dois gumes em Hollywood. Ele pode garantir uma carreira estável em um gênero com público fiel, mas também pode se tornar uma gaiola dourada, limitando a percepção da indústria sobre o alcance de um ator. Thatcher parece plenamente ciente dessa dinâmica. Embora demonstre respeito pelo gênero e por suas ícones, como Shelley Duvall em “O Iluminado”, sua fala à i-D deixa claro um desejo de expandir o repertório. Filmes como “Companion” e “Heretic”, projetos independentes de horror que se tornaram sucessos de bilheteria com ela no centro, provaram sua capacidade de carregar uma produção.
Esse sucesso comercial é a chave para entender seu movimento atual. No ecossistema de Hollywood, a bilheteria confere poder. Ao provar que é um ativo rentável, Thatcher ganhou a liberdade de apostar em um projeto como “Her Private Hell”, um filme de ficção científica descrito como “estranho”, cujo processo de filmagem foi “confuso e desafiador”, segundo a própria atriz. É um cálculo de risco que muitos atores em ascensão não podem ou não ousam fazer. Para Thatcher, parece ser o único caminho que interessa: usar a plataforma comercial para financiar a ambição artística.
A liturgia do autor
A colaboração com Nicolas Winding Refn, diretor de “Drive”, é mais do que um simples trabalho; é uma declaração de intenções. O processo descrito na reportagem da i-D — imersivo, instintivo e sem roteiro fixo — é a antítese do cinema de estúdio. Thatcher relata ter entrado em um “estado meditativo, de transe” durante as filmagens, uma entrega total à visão do diretor, com quem chegou a morar durante a produção em Copenhague. Essa imersão profunda é o que ela parece buscar ao citar outros cineastas com quem sonha trabalhar: Kelly Reichardt, Todd Solondz e até o controverso Lars von Trier.
Essa lista de nomes não é acidental. São todos cineastas conhecidos por suas visões inflexíveis e por extrair performances transformadoras de seus atores. O movimento de Thatcher espelha o de outras estrelas que, após alcançarem a fama em franquias ou gêneros populares, buscaram ativamente diretores de autor para se reinventarem e provarem sua versatilidade — o caso mais notório talvez seja o de Kristen Stewart após a saga “Crepúsculo”. Para Thatcher, o objetivo parece ser o mesmo: ser coautora do processo, não apenas uma peça no tabuleiro. “Você não aparece apenas para ser um robô”, disse ela.
Com o fim de “Yellowjackets” no horizonte após quase seis anos, Thatcher se prepara para abandonar a personagem Natalie, que ela descreve como um “fantasma que às vezes a assombra”. O fim da série representa uma lousa em branco, uma oportunidade de construir uma filmografia do zero, guiada não pela segurança, mas pelo desafio. A questão não é se ela terá ofertas, mas quais escolherá. Sua ambição declarada de não “ficar no meio” e evitar o que é “seguro” sugere que os próximos anos de sua carreira serão, no mínimo, interessantes de acompanhar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · i-D





