A Brightly, uma startup de Boston fundada em 2023 por Andy Levitt, ex-líder da Purple Carrot, introduziu no mercado uma nova modalidade de créditos de carbono. Estes créditos são lastreados em projetos de resgate de alimentos que, de outra forma, seriam desperdiçados, com o objetivo de financiar organizações sem fins lucrativos que distribuem esses alimentos a pessoas necessitadas. A iniciativa, que já conta com contratos com mais de 25 organizações, incluindo a Feeding America, foi validada pela Verra, o maior programa de credenciamento de carbono do mundo, sob uma metodologia específica para redução de perdas e desperdício de alimentos.
Mecanismos e Controvérsias
A proposta da Brightly visa criar um "ciclo virtuoso de atividade", onde a venda de créditos de carbono gera fundos para que organizações de resgate de alimentos possam operar e expandir suas operações. Isso, por sua vez, evita que esses alimentos acabem em aterros sanitários, onde sua decomposição emite metano, um gás de efeito estufa significativamente mais potente que o dióxido de carbono. A empresa argumenta que essa abordagem oferece às corporações uma nova via para abordar conjuntamente as questões ambientais e a fome. No entanto, o mercado de créditos de carbono não está isento de críticas. Pesquisas apontam que nem todos os projetos cumprem suas promessas de benefícios climáticos reais, e a própria existência de créditos pode, segundo especialistas, facilitar o "greenwashing" – a prática de empresas se apresentarem como ambientalmente responsáveis sem uma substância real por trás.
O Problema do Desperdício de Alimentos
Nos Estados Unidos, estima-se que até 40% de todos os alimentos produzidos sejam desperdiçados. Esse desperdício ocorre em diversas etapas da cadeia, desde a fazenda até o consumidor final. A maior parte (cerca de 60%) acaba em aterros, liberando metano. Globalmente, o desperdício de alimentos responde por 6% a 10% das emissões mundiais, superando a contribuição da aviação. Simultaneamente, milhões de americanos enfrentam insegurança alimentar, dependendo de bancos de alimentos que frequentemente resgatam parte desses alimentos desperdiçados. Muitas dessas organizações lutam por financiamento, especialmente diante do aumento da demanda e da pressão econômica, o que limita sua capacidade de resgatar mais comida.
Adicionalidade e Granularidade
A Brightly afirma que sua solução aborda ambas as pontas do problema. Um ponto crucial para a validade de um crédito de carbono é a "adicionalidade", que garante que a redução de emissões não teria ocorrido sem a receita gerada pelos créditos. A Brightly estabelece uma linha de base com base no histórico de atividade de três anos de cada organização, creditando apenas o impacto ambiental que excede essa base. A empresa analisa dados específicos sobre os tipos de alimentos resgatados para quantificar o impacto climático com alta granularidade, desde pães até carnes, buscando garantir a qualidade e conservadorismo dos créditos emitidos. Empresas de diversos setores, não apenas do ramo alimentício, podem adquirir esses créditos.
Implicações e Futuro
A Brightly retorna até 80% da receita da venda dos créditos para as organizações de resgate, permitindo-lhes expandir suas operações. A quantia específica que cada organização recebe é difícil de precisar, pois os créditos são emitidos sob um guarda-chuva maior, não individualmente. A inovação da Brightly surge em um momento de crescente pressão por soluções climáticas e sociais, mas a credibilidade do mercado de carbono continuará a ser um fator determinante para o sucesso de iniciativas como esta. A capacidade de provar adicionalidade e evitar o greenwashing será fundamental para a adoção em larga escala e para a construção de confiança.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





