A Statkraft foi selecionada para receber mais de 38 milhões de euros no âmbito do programa Repotenciación Circular, gerido pelo Instituto para a Diversificación y Ahorro de la Energía (IDAE) da Espanha. O aporte, financiado pelo fundo europeu NextGenerationEU, visa a modernização de ativos eólicos em regiões estratégicas, como Galiza, Andaluzia e Castela e Leão, totalizando uma capacidade instalada de 322 MW nos projetos contemplados.

Esta movimentação reflete uma tendência crescente no setor de renováveis europeu: a transição do foco exclusivo em expansão para a otimização de parques existentes. Segundo a empresa, a estratégia de repotenciação e hibridização com baterias está alinhada às metas nacionais de descarbonização e eficiência energética.

O desafio da eficiência operacional

A repotenciação consiste na substituição de turbinas antigas, instaladas há décadas, por equipamentos de última geração, mais potentes e silenciosos. No caso do complexo Serras Faro-Farelo, na Galiza, a Statkraft planeja remover 80 aerogeradores de 2005 e instalar apenas 25 máquinas modernas. Essa redução drástica no número de unidades, mantendo ou elevando a capacidade produtiva, exemplifica o ganho de eficiência técnica que a tecnologia atual permite.

Além da troca das turbinas, a integração de sistemas de armazenamento por baterias é o pilar central da nova fase de investimentos. A capacidade de estocar energia produzida em momentos de alta oferta e injetá-la na rede sob demanda resolve um dos maiores gargalos da intermitência das fontes eólicas, tornando o ativo mais resiliente frente às flutuações do mercado elétrico.

Mecanismos de incentivo e impacto ambiental

O programa Repoten 2 utiliza fundos de recuperação para mitigar o risco financeiro dessas atualizações, que exigem investimentos pesados — no caso da Statkraft, a estimativa total supera os 300 milhões de euros. O incentivo público atua como um catalisador para que operadoras priorizem o uso de terrenos já ocupados em vez de expandir a infraestrutura para novas áreas naturais.

Do ponto de vista ambiental, os novos projetos incorporam tecnologias de proteção à avifauna, como radares de detecção e sistemas de parada automática. A redução do número de turbinas também diminui o impacto visual e a ocupação do solo, um ponto crítico nas discussões sobre o licenciamento de projetos renováveis na Europa.

Perspectivas para o mercado de renováveis

O sucesso da Statkraft em ter todos os seus projetos selecionados nesta chamada pública sinaliza que o modelo de negócio focado em modernização de ativos maduros é visto como prioritário pelos reguladores. A capacidade de duplicar a produção de energia, como demonstrado no precedente do parque de Malpica, torna a repotenciação um caso de negócio altamente atrativo para investidores de longo prazo.

Para o ecossistema brasileiro, o modelo espanhol oferece lições valiosas. À medida que os primeiros parques eólicos do Nordeste brasileiro atingem a maturidade, a discussão sobre a substituição de componentes e a hibridização com armazenamento deve ganhar força nas agendas de planejamento energético.

O futuro dos ativos maduros

O que permanece incerto é a velocidade com que o mercado conseguirá escalar essas substituições sem interromper o fornecimento de energia durante as obras. A complexidade logística de desmantelar parques inteiros e realizar o retrofit exige uma coordenação precisa entre empresas e operadores de rede.

O setor continuará observando como a integração de baterias em grande escala alterará a curva de preços de energia no mercado ibérico e se esse modelo será replicável em outras geografias com infraestruturas igualmente antigas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España